AS MISTERIOSAS MONTANHAS DE GUILIN


Depois de uma visita à Veneza do Oriente, em Su Zu, onde se situa o maior parque de bonsai do mundo, com canais e até um pagode inclinado, à moda de Pisa, rumámos para Guilin, cidade da Região Autónoma da Nacionalidade do Guangxi, no interior da China.
Aqui, o clima é temperado e húmido, sem grande rigor no Verão nem no Inverno. Por isso, a sua vegetação é de um verde luxuriante, os arrozais proliferam e a paisagem oferece-nos as montanhas mais mágicas deste planeta. Não se pode compreender a pintura e a arte chinesa antes de se visitar Guilin. Aqueles morros esguios que emergem das telas de seda e de papel, e que fazem parte do nosso imaginário, existem. É lá que os encontramos, envoltos pela mesma névoa misteriosa com que são, invariavelmente, pintados, desde séculos.
Os estudos geológicos concluíram que há três milhões de anos esta região era um mar infinito. A erosão e o tempo fizeram o resto. Legaram-nos milhares de grutas e cavernas por onde serpenteia a água e onde as estalactites e estalagmites destilaram figuras que, com um pouco de imaginação, parecem dragões, leões gigantescos, velhos a galgar montanhas, cogumelos, vagens amendoins e melancias, em formas pantagruélicas e oblongas, e até a própria Xangai ou Nova Iorque, se reflectem num espelho de água com poucos centímetros de profundidade, onde as gotas cadentes fazem vibrar a superfície brilhante. Por ser uma cidade que nasceu entre montanhas e rios, Guilin é considerada “a única” no mundo.
Quando cheguei, foi fácil perceber tudo isto. Como a viagem me ia proporcionando momentos de cada vez mais rara beleza e singularidade. A própria aterragem, num aeroporto “escoltado” de montanhas, deu a sensação de estar a entrar num mundo diferente, onde o calor impiedoso e a humidade já não eram os inimigos que alagavam as camisas dos meus companheiros, e onde se podia respirar uma brisa que vem da copa das florestas.
De noite, a cidade também se enche de magia. Os lagos, e toda aquela água omnipresente, reflectem uma luz multicor sobre as margens, os pagodes do sol e da lua e as suas famosas pontes, réplicas das mais famosas do mundo.
E é de noite que podemos ver um espectáculo especial, o cormorant, com pássaros que fazem o trabalho de pescadores, à luz das lanternas e em embarcações rudimentares, que mais não são do que umas jangadas de bambu. Depois do jantar, embarquei para seguir de perto esta arte, com os homens a lançar à água os pássaros, uma espécie de patos que submergem e nadam velozes em busca de peixe. Presos com cordas atadas à volta das gargantas, sobem, depois, para a jangada e esperam que os seus donos lhes abram os bicos, depositando nos baldes o peixe que caçaram. O peixe do último mergulho é para se saciarem, é a recompensa do seu trabalho. O engraçado deste espectáculo é que parece existir uma autêntica comunicação verbal entre humanos e aves. Elas grasnam, saltam para a água à voz do comando e (terá sido sugestão minha?) reclamam se já não Têm vontade de fazer o mergulho.
De madrugada, o cruzeiro no rio Liijiang.
Vezes sem conta, vi, encantada, documentários de viagem que retrataram, fielmente, toda a beleza natural destas montanhas. Agora, ao vivo, embarquei para navegar o rio por quatro breves horas de uma inenarrável campanha. Os barcos providenciam o almoço que é ali confeccionado, na popa, sem mordomias; na proa seguem o comandante e seus imediatos, com bandeira verde e vermelha, sem stress, estirados sobre as cadeiras; o tráfego fluvial é intenso e as embarcações sulcam o rio em fila indiana, obedecendo ao traçado em que não há perigo dos bancos de areia; em todos os barcos vão grupos de turistas, vindos de muitas partes, de fora e de dentro da China, e os seus rostos alegres, com um sorriso aberto, não escondem a felicidade do momento; acenam-me e trocamos gestos de cortesia; das margens, ao nosso encontro, há uma espécie de canoas que se colam, literalmente, às janelas de bombordo e estibordo para vender recordações; ao nosso lado, passam outras minúsculas “embarcações”, feitas de bambu e com um motor rudimentar, para pequenas famílias ou grupos que, à sua maneira, se deliciam com a paisagem.
Mas o que me marca é a sublime grandiosidade das montanhas, esses morros intermináveis que se sucedem, uns atrás dos outros, e que não parecem ter fim, apesar de já se ter percorrido tanto rio.
Búfalos mergulhados na água ou a ruminar o pasto verde das margens, excursionistas chineses a banharem-se, aldeias centenárias de bambu abandonadas, tijolo vermelho manufacturado e em pilha, arrozais, pequenas hortas semi-escondidas por detrás dos bambuzais, caminhos que poderiam levar-me a outras aldeias ou até aos famosos campos de dorso de tigre, se tivesse tempo para essa exploração, cachoeiras, quedas de água, gravuras nas montanhas a pique, enquanto a névoa se dissipa dos cumes para deixar passar a luz da manhã, e o calor se insinua cada vez mais, mas sempre, sempre no meio de um paraíso.
Esta é, seguramente, a viagem ideal para quem está de bem consigo, e com o mundo. O ar que se respira conhece, apenas, a harmonia das coisas simples; a brisa traz os sons ocultos das montanhas que estão ali, há milhares de anos, e assim foram desfrutadas por pintores e outros artistas, apaixonados por tanta beleza; apesar das gargalhadas de quem segue viagem, e do espanto e admiração por esta Natureza pródiga, senti a solidão doce e reconfortante de quem encontra uma coisa que procurou com afã: o prodígio de ver, cheirar e sentir a infinita grandeza daquilo que é belo e assim permanecerá, depois de mim.
   

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