MADA DAYO

MADA DAYO



Neste filme de Akira Kurosawa, de 1993, o maior cineasta de sempre do Extremo Oriente, que trata a amizade e a solidariedade por tu, vejo a história que me encanta e faz chorar, todas as vezes que for preciso.
Num cenário em que se adivinha já a Segunda Guerra Mundial e numa tela a preto e branco, um homem pequenino e delicado, com muito humor e sabedoria, reforma-se da sua profissão de sempre: ensinar Alemão.

Contrariando a lenda Japonesa, em que um homem de idade se recusa a morrer, também o professor e os alunos, enleados no encanto do mestre e amigo, apostam em enganar a sua morte que não deixarão interferir nos planos de vida que, em conjunto, põem em marcha.

Eles são jovens e atrevidos, têm os atributos que a mocidade deve ter. Assim, desafiam a inteligência do seu professor, até ao ponto de celebrarem uma aposta: que seriam capazes de assaltar a sua casa, impunemente.
O mestre, prudente mas arrojado, levou a melhor. Preparou os aposentos para a noite, eventual, em que seria surpreendido por estes insólitos “ladrões” que acabaram por fazer uma espécie de “visita guiada”. Com direito a sala para fumar cigarros e sem nada para furtar, a não ser as ideias geniais do mestre, que passam a venerar mais.

Do compromisso que assumem, destaca-se o aniversário do mestre, em festa rija que mais não é do que a celebração de “mais um ano” de vida e de amizade.
À coloquial pergunta dos alunosMada Kai?” (Estás pronto?), o mestre responde, com um olhar sempre doce, mas provocador, Mada dayo!“ (Ainda Não!), para gáudio supremo de todos os convivas que bebem até mais não, grandes canecas de cerveja, até altas horas da madrugada, em ruidoso espavento que a complacência da polícia deixa passar incólume.
A morte que espere!
Primeiro, a festa da amizade, da admiração incondicional por aquele homem que os tinha ensinado Alemão e, sobretudo, a ser homens.


Amado até à morte, foram os seus alunos, depois quadros superiores de empresas e profissionais bem sucedidos, que lhe valeram no infortúnio. Com a casa em ruínas, bombardeada durante a guerra, erguem-lhe outra onde, para consolo do mestre, um lago circular permite que as carpas nadem, como se estivessem num mar imenso, sem barreiras.
Quando a comida escasseou, foi com eles que o professor dividiu um jantar frugal, de carne de cavalo, que tanto lhe custou comer, por ter avistado na porta do talho o olhar acusador de um outro irmão de espécie, a quem pediu reverente desculpa.

Com Nora, a história repete-se.
Um gato grosso e bem tratado, que lhe fora parar às mãos acidentalmente, e que se torna credor do dono que chora, inconsolável, a sua perda, a sua fuga. E os alunos, de novo, tudo fazem para atenuar a dor do mestre e conquistar a sua proverbial alegria de viver.

Fascina-me a lição de Kurosawa.
Especialmente esta, que gira à volta da relação integral entre professor e alunos e que transcende a sala de aula. A relação que passa para o mundo. Não sei se terá sido inspirado por algum mestre da sua vida.

Ensinar não é apenas transmitir conhecimentos. É partilhar convicções, sem cair na tentação de estiolar a autenticidade dos alunos; é incentivar quem acredita em nós; é propagar o valor da tenacidade e a ideia de que não se deve desistir, mesmo quando nos sentimos fragmentados e batidos pela dureza da vida.

Kurosawa também quis desistir.
Depois de uma tentativa de suicídio, filmou “A Águia da Estepe” que lhe valeu o Óscar para Melhor Filme Estrangeiro. E, com idade avançada, surpreendeu os cinéfilos mundiais com outros filmes premiados. Mada dayo, rodou-o antes de falecer.

Akira estimula todos os meus sentidos, e o coração, com o modo como processou a sua simbiose entre a filosofia, a imagem e o sentimento Japonês. Este professor é um dos meus heróis, um personagem que me inspira, desde sempre, muito tempo antes de o ter conhecido.

Também eu gostava de responder, um dia, aos alunos que me quiseram escutar e aprender comigo, Mada Dayo!.

                                                                       

Comentários

Mensagens populares deste blogue

A MATRIOSKA VISTA POR GALYNA STARCHUK