A OUTRA FACE DA LIBERDADE




“Diante da opressão, a liberdade é simples de entender:
  é o oposto da escravidão”

 Paulo Coelho, “O Guerreiro da Luz”


Foi em 1988 que me ocorreu fazer uma curta viagem de turismo à Roménia.
De todas as propostas da agência, aquela era a menos dispendiosa. E era também a que mexia com a minha curiosidade. Tratava-se de um país escondido silenciosamente para trás da “cortina de ferro”, e do qual nada se sabia, a não ser que pertencia ao bloco onde imperava o regime comunista.
Com a Albânia, nada feito. O seu governo isolara o povo, e fizera dele um grupo de fantasmas, dentro de fronteiras fechadas a sete chaves. Portanto, toca a fazer malas e partir rumo ao desconhecido e, quem sabe, ao próprio perigo.

Logo no desembarque, em Bucareste, cigarros distribuídos pelo grupo de portugueses aos militares que, com um ar glacial os aceitaram, como sinal de boas-vindas, apesar de, para os basbaques, ser a melhor maneira de pôr o pé num país “hostil”, com um suborno, não fosse o diabo tecê-las e ficarmos logo ali, às mãos da polícia política.

Depois, para meu espanto, a máquina fotográfica confiscada, porque a dona se lembrou de registar a chegada, com “disparos” sobre aquelas gentes ignotas, as fardas e o edifício, bem típico da arquitectura imponente e fria do regime.

Ainda hoje revejo a estupefacção do povo, hospitaleiro, mas sem nada oferecer, a não ser sorrisos e perguntas. Um povo romano, como insistia em deixar claro, e que olhava para os nossos adereços de ouro e para as roupas de marca, como se fossemos a encarnação do próprio Rei Midas.
Entre dentes, motorista e guia, já falavam de câmbios e perigos, e de expedientes para transaccionar marcas americanas.
As conversas entrecortadas,
No quarto do hotel, o medo e as perguntas sobre Portugal, num inglês ou francês bem remediado,
.... para os romanos, uma terra sem fome e sem pobreza.
Eu bem respondia que não, que cá também havia graves problemas sociais e económicos, mas ninguém a acreditar. Propaganda para desacreditar as virtudes da nossa democracia, provavelmente porque eu seria uma comunista convicta, era a legenda que passava na resposta.

Coisas houve e que são marcas desta viagem.
A falta de umas míseras folhas de papel de embrulho,
A vergonha da farmacêutica que, num francês impecável, se desculpava por ter de vender aspirinas a retalho,
A proibição para deambular livremente nas praias do Mar Negro, com os seus banhos de lama,
As vitrinas sem nada para vender, a não ser o pó acumulado dos anos e os frascos com conservas a boiar, completamente fora do prazo e com rótulos enferrujados,
A falta de pão e de um café.
Os meus pés na água quente do mar ...
O mercado negro da moeda e as fraudes costumeiras bem pregadas aos turistas que querem que um dólar valha o triplo do seu valor,
iluminação pública reduzida a pirilampos - pela drástica falta de energia
O culto da personalidade do ditador,
O hino que soava às vinte e duas horas, e com ele terminava a vida e a animação de férias,
Os velhos nas igrejas ortodoxas,
As crianças e os adultos apinhados à frente de um televisor obsoleto, a preto e branco,
A minha guia, que era médica, com um salário equivalente a cerca de três contos de reis.

A asfixia foi rápida.
Nos pés da cama, fizemos contas aos tostões.
Sobrava dinheiro para um dia em Istambul. Parti, pelas quatro horas da madrugada, e o avião, à luz da lua, todo em metal prata, fez-me lembrar “Casablanca”, e a despedida mais fantástica de todos os tempos, com Bogart e Bergman.

A desforra foi total para lá do mar.
O grande bazar, a alegria no comércio de tapetes, os olhos verdes como o mar da Mármara, o peixe e a beringela num almoço de fausto, os sumos de frutos ao preço da chuva.
Mas voltou o pesadelo quando sobrevoámos de novo para a Roménia.

Hoje recordo a delicadeza com que me pediam cigarros, de preferência americanos, o sorriso que me davam, sem que eu entendesse o que diziam, e a dignidade com que disfarçavam tanta miséria e escravidão.

Quando voltei ao meu país, não quis escrever sobre o que acabara de ver, porque era impossível que alguém acreditasse naquilo que pudesse ler. Uns anos mais tarde, um jornal diário plasmava em artigo este mesmo retrato, com a descrição detalhada e verdadeira, de tudo o que os meus olhos viram. Fiquei aliviada.
Os tempos eram outros.
Para lá de Berlim, soprava já forte o vento da liberdade.

Politicamente, só somos livres quando podemos realizar, sem impedimentos, os nossos desejos e aspirações. Por isso, o sofrimento e a opressão vão contra as nossas legítimas tentativas de uma vida melhor. É esta esperança que fez com que tantos Portugueses demandassem as Américas, a África, e o resto da Europa, para cumprirem o seu ideal de liberdade. Como actualmente fazem checos, eslovenos, romenos, russos, ucranianos, asiáticos e africanos, que procuram em Portugal o pão e melhor sorte.

Se há direito mais sagrado e inalienável é o de cada um perseguir o seu sonho, fugindo de todas as formas de opressão e violência, da fome e da morte. Pela Liberdade viveram em cativeiro e morreram homens e mulheres, cujas conquistas são passos gigantes na história da Humanidade e um património inestimável que temos o dever de enriquecer, para legar aos vindouros. Mahatma Gandhi, Nelson Mandela, Luther King, e um exército de rostos anónimos não fecharam os olhos ao sofrimento e ao infortúnio que vivem, lado a lado, com a alegria, o conforto e a abundância.

A escravidão, nos dias de hoje, não tem pele negra, nem ostenta grilhões.
A escravatura sofisticou-se e os poderes públicos devem combatê-la, e a quem ela aproveita, procurando os seus sinais no meio do silêncio e do medo dos escravos do novo milénio.
 
Malthus, e as suas teorias pessimistas, viam o crescimento demográfico como uma tragédia. Eu continuo a pensar que há um lugar para todos. Basta ceder um pouco de nós mesmos, criar espaço no coração, limitar a cegueira e refrear a desmedida ambição.
Sobretudo, é necessário deixarmos de ser hipócritas.
Os cidadãos mão-de-obra barata não podem ser as cifras negras dos sinistros, os rostos que não se conhecem nas repartições públicas, os nomes que não figuram nos contratos e a caça grossa de homens sem escrúpulos.

A Liberdade é a raiz do Humanismo, mesmo nas sociedades neocapitalistas modernas, onde o olhar dos Estados não é atento e se perdeu a memória viva de um passado, dos malefícios do fisiocratismo, e do liberalismo selvagem que reduziu o Homem à condição de escravo.

É preciso não esquecer que há sempre um lado oculto em todas as coisas.
Num mundo como o nosso, a outra face da Liberdade pode ser a da Escravidão.

Citando de novo Paulo Coelho:

Um Guerreiro da Luz está sempre comprometido. É escravo do seu sonho, mas livre nos seus passos”.


Crónica publicada em 9 de fevereiro de 2002 em Jornal.
Publicada em 2007 em "Ainda Não" (Iva Carla Vieira)

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