MACAU E A ALMA LUSITANA

Cadernos de Viagem (9) - Crónica publicada em jornal
Agosto de 2007

Ruinas de S. Paulo
Fachada que permanece, depois do incêndio que destruiu a Catedral, em 1835.
Testemunho da missão dos Portugueses - dilatar a Fé e o Império - Macau foi o foco de difusão do Catolicismo e o ponto de partida dos missionários para o extremo Oriente, em particular para a China.



MACAU E A ALMA LUSITANA

Chegámos a Macau por mar, numa travessia feita em turbojet, uma espécie de overcraft com uma velocidade moderada que permite não perder de vista a costa e as ilhas, uma presença permanente nestas paragens. Quando se chega e se lê o português, escrito na sinalética e nas placas toponímicas, temos a estranha sensação de estar em casa, apesar de haver de se cumprir todas as formalidades próprias de uma fronteira.

Durante mais de quatrocentos anos os Portugueses estiveram neste enclave de território e ali espalharam a sua cultura, usos e tradições, que ainda presenciamos, particularmente na arquitectura, civil e religiosa, na culinária, no idioma falado pelos lusodescendentes (o famoso patuá) e, uma vez mais, na coexistência tolerante entre as artes e a religião chinesa e portuguesa.

Foi em 1999 que, numa cerimónia extraordinária e emotiva, se arreou definitivamente a bandeira de Portugal para Macau passar a fazer parte de uma Região Autónoma, que, apesar de pertencer à República Popular da China, se rege por leis especiais. Hoje, praticamente, não há quem fale a nossa língua mátria; nestas paragens, com excepção dos portugueses radicados há décadas, é o mandarim e o inglês que servem para comunicar; porém, os editais afixados no antigo Leal Senado, onde damos conta de penhoras, citações para divórcio e até interdições, estão escritos em Português e mandarim.

Foi entre 1554 e 1557 que os Portugueses se estabeleceram em Macau, em plena era dos Descobrimentos, e há mesmo quem afirme que foi Jorge Álvares o primeiro que, por volta do ano de 1513, aqui desembarcou. O que se sabe, e diz a lenda, é que, sob o pretexto de secar a carga que traziam nos seus navios, terão aportado numa baía onde ainda hoje existe o templo dedicado à deusa Á-Má, protectora dos pescadores. E que, aqui chegados, terão perguntado onde se encontravam, ao que os naturais terão respondido Amagau, que significa “baía de Á-Má”. É esta uma das explicações que se encontra para a origem do nome de Macau que, rapidamente se transformou num interposto de comércio entre o Oriente, em especial a China e o Japão, e a Europa, liderado pela influência civil e religiosa dos Portugueses. 
Para o estabelecimento e prosperidade económica desta região, muito contribuiu o imperador Chi-Tsung que, em 1557, permitiu a criação permanente de uma colónia, em recompensa da ajuda prestada pelos portugueses na derrota dos piratas chineses, liderados por Chang-Tse-Lac, que operavam nesta área geográfica e desenvolviam o intercâmbio comercial com o Japão, quando este havia sido proibido pela dinastia chinesa, por um período de cem anos. São estas raízes históricas, e os demais vestígios ainda presentes no século XXI, que nos falam do propósito essencial da presença portuguesa: mais do que dominar o povo e impor uma governação, eram os laços de comércio que, naturalmente, abriram as portas para a fixação de outros portugueses, permitiram o cruzamento de povos que sempre conviveram num clima de absoluta tolerância.

Vista do alto da igreja de Nossa Senhora da Penha, que, na fachada, ostenta a cruz da Ordem de Malta, vemos a cidade a nossos pés, com um traçado e ambiente urbano onde se misturam, pagodes e templos cristãos, o farol da Guia e a Fortaleza do Monte, os cemitérios, o casario com uma típica fachada chinesa – as suas persianas em madeira trabalhada policromada – os edifícios projectados pelos portugueses, com azulejos, e as casas macaenses, uma fusão das duas culturas.

Ver e estar em Macau é uma experiência inesquecível.
É ser mais português, mesmo sendo um cidadão do mundo. Lá, no extremo Oriente, depois de experimentar os rigores da diferença entre culturas, os pequenos choques de civilizações e o abismo entre gostos e hábitos, somos, finalmente, capazes de aquilatar a coragem e o esforço daqueles que, com recursos limitados, conseguiram aportar em terras distantes e por lá ficar, criando novas famílias.

Podemos visitar Macau de muitas maneiras. Subir e descer as suas ruas e escadas, e ser surpreendidos pela beleza da diferença. Quem desce as escadas e deixa para trás as ruínas de S. Paulo, que se erguem majestosamente no alto de uma colina, como se fora uma verdadeira acrópole, já compreende o fascínio desta terra. A fachada da igreja, construída pelos Jesuítas entre 1602 e 1640, e posteriormente consumida pelo incêndio de 1835, contém já os símbolos de uma tolerância exemplar.
Quem a vê atentamente descobre, trabalhados na pedra, a caravela e o dragão e, mesmo ao lado, um templo chinês alberga as oferendas de quem não se converteu ao catolicismo. Os macaenses acreditam que quando ruir a fachada, Macau desaparecerá. Daí que se observem os maiores cuidados na sua conservação, e a mantenham erecta, através de contrafortes que a sustentam por trás e não são visíveis para quem se queda, ali sentado, a olhar os seus belos traços.

Depois é a descida, pelas ruas sinuosas, ladeadas por antiquários e fábricas de doces, uma espécie de confeitarias de onde exala um perfume fantástico e onde se faz a demonstração do processo de fabrico das melhores bolachas que comi até hoje. Aqui, prova-se de tudo, porque a escolha é infindável e o paladar fica aturdido com as especiarias do recheio. E também lá se vende o célebre pastel de nata com café, por meia dúzia de patacas, a moeda corrente de Macau.
Para mim, o gosto pelo doce com açúcar é uma das muitas heranças dos portugueses; ao contrário do resto do continente chinês, os macaenses adoram comer estas iguarias e os turistas, como eu, trazem, pelo menos, umas caixas de bolachas.


Panorâmica da cidade, vista do Jardim de Camões, com a fachada da Catedral de S. Paulo



A sinalética em dois idiomas,  no centro de Macau, muito perto do Leal Senado


Outra vista sobre Macau
Agora é bem visível o Palácio do Governador, edifício rosa que, até 1999, foi a residência do Governador de Macau, sob administração Portuguesa.
Actualmente, serve para encontros diplomáticos.


Placa identificadora do Templo de A-Má
Local de oração e devoção dos Macaeneses que ali deixam as suas oferendas.



O famoso Restaurante Santos, na ilha da Taipa
Ali almoçámos para matar saudades do caldo verde e outra comida Portuguesa.


Mais uma referência explícita à Portugalidade
Nem mais: o galo de Barcelos!
O próprio que, na sua terra, se encontra indissociado da lenda maravilhosa de um inocente e do juiz que o resgatou da morte, já que, antes de ser trinchado, "cantou"!



Uma placa singular
Sob o símbolo da bandeira da Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China- adoptada depois da transferência da soberania Portuguesa - os "anúnicos".


Vestígios da soberania Portuguesa


Outro indicador, este bem mais peculiar
Um edital afixado no Leal Senado, que bem atesta que os Tribunais adoptam o idioma Português, em simultâneo com o mandarim.


O rosto da modernidade em Macau
O território transformou-se radicalmente, com construções do tipo "rasga-céus", com a proliferação de casinos, jardins temáticos, pontes arrojadas.



O jardim Camões, local idílico onde, mal amanhece, se procura a frescura e a contemplação
Segundo a lenda, terá sido aqui que o genial Poeta Lusitano viveu numa gruta


Uma loja com os bolos de esposa


Um memorial a Luis Vaz de Camões, poeta de cuja vida pouco se conhece
Sabe-se que terá partido para o Oriente e ali vivido, tendo regressado à pátria, em 1567.
Viveu uma pixão por uma chinesa, Dinamene, e salvou o manuscrito de Os Lusíadas, depois de a nau em que seguia ter naufragado no rio Mekong.



Caixas do correio
Traços do passado de famílias portuguesas que, provavelmente, aqui deixaram a sua descendência.

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