NUM REGAÇO DE MÃE

Quem entra na Basílica de S. Pedro encontra logo à sua mão direita a Pietà de Miguel Ângelo. De um bloco de mármore triangular, este gigante das artes plásticas e pictóricas fez sair uma das esculturas mais comoventes e dolorosas que se contempla com uma infinita mágoa.
Apesar do vidro que agora nos afasta e que esbate a visão do pormenor, a mestria e a genialidade do escultor imperam naquele canto e quase nos fazem esquecer outras riquezas ornamentais do Vaticano.  

Quando se é mãe, compreende-se, à flor da pele, a expressão que vemos no rosto da Virgem, que segura nos seus braços o Filho martirizado, morto e estigmatizado pela agonia que lhe foi infligida na sua caminhada até ao Calvário.
No silêncio enorme de uma dor contida, adivinha-se no rosto de Maria as lágrimas retidas e um sofrimento pronto a explodir do seu coração despedaçado, ao ver o corpo de Jesus que lhe foi entregue, desnudado, para assim o sepultarem.

Ficamos ali, subjugados, reduzidos à nossa escala humana, a avaliar a angústia de uma Mãe que assistiu à Paixão do Filho. E é tanta a profundeza insondável das sensações despertadas pela Pietà que sou capaz de afirmar que esta expressão terá sempre uma força confrangedora, ultrapassando a temporalidade do baldaquino imponente e do altar deslumbrante, no manancial artístico que nos rodeia, no Vaticano.

Dizem os Romanos que, ao todo, Miguel Ângelo terá feito quatro Pietàs, reservando uma delas para o seu próprio túmulo, o que não veio a acontecer, por ter ido parar à Catedral de Florença, sua terra natal. Certo é que, na sua exaltação religiosa, deixou um legado em que a figura humana é sublime, bela e perfeita, e onde tudo é mensurável à escala do divino, incluindo a própria dor.
A Pietà, e o que ela evoca, dão um sentido mais humano à vida, porque aquele Cristo, descido da cruz, bem pode ser, nos nossos tempos, o soldado que cai em qualquer campo de guerra, a criança ou mulher que se mata num atentado suicida, o preso condenado à morte. O homem ou a mulher que tem de ser amortalhado e a mãe que sofre, silenciosamente, a perda maior.       

Em tempos de Páscoa revive-se a Paixão de Jesus.
Na simplicidade de um convento, que alberga quem aí queira descansar, cumpri a Via-Sacra, um exercício cuja origem se perde nos tempos e que a Igreja consagrou ritualmente há cerca de três séculos. De estação em estação, percorri os passos que, segundo os Evangelhos e a tradição popular, terão sido calcorreados por um Cristo agonizante, no meio de apupos, injúrias e insultos, como se fora um vulgar ladrão da sua época.

Por um caminho de pedra serpenteado, subi a pequena montanha, em oração com os outros e a pequena congregação; no breu da noite, só a luz das tochas e o compasso cadenciado dos pés, a arrastar a cruz, sempre a recordar os episódios da crucificação.
As vezes que Jesus caiu por terra e as vezes que se levantou, a ajuda que recebeu para carregar a sua cruz, Verónica a enxugar o seu sangue derramado, o encontro do Filho com Maria, sua mãe, a forma como foi espoliado da sua túnica que, por ter algum valor, foi ainda sorteada pelos soldados e, finalmente, o modo como recebeu a morte.

Sem necessidade de indagar da fé de cada um, o que importou foi aquela caminhada, feita à luz dos nossos tempos e das novas preocupações que afligem a humanidade.
Assim, por cada estação percorrida, lembrámos as nossas faltas e omissões, e o pouco que fazemos para mudar o mundo que sofre.
Comparou-se o Calvário com a Modernidade, para se ter a certeza que é possível aliviar o peso de qualquer cruz desde que saibamos ser fraternos, quando deixamos de julgar e recriminar os outros e os avaliamos generosamente, com os mesmos padrões com que gostaríamos que nos tratassem.

Num mundo crivado de sinais de ódio e intolerância, e em que cada dia do calendário pode ser mais um passo na via da exclusão e da violência, do egoísmo e da incompreensão, meditar sobre coisas tão simples só pode trazer vantagens. É preciso compreender como é falível o poder dos Homens e como é importante recomeçar, em cada dia e dentro de cada um de nós, esta tarefa de Renovação.

E se comemoramos a Ressurreição de Cristo num clima de festa, temos o dever de nos libertar, especialmente de amarras que nos prendem ao chão da ignorância ou da cegueira emocional.

Nesta Quaresma lembrei-me da Pietà.
Do momento em que a contemplei, pela primeira vez, e tive a certeza de que somos feitos à imagem de Deus, porque milhões de seres humanos sofrem e morrem, diariamente, numa agonia intolerável, como a de Cristo nos baraços de sua mãe.
Porque a dor penetrante que se espelha no rosto da Virgem é igual à de todas as mães que têm de sepultar os seus filhos.

Olhando para a Pietà, não falece, porém, a chama que nos anima e consola. Apesar da tristeza imensa que nos invade, tão igual à de Maria, só vemos na placidez do seu rosto a salvação, enquanto houver um regaço de Mãe, celestial ou terrena, que nos ampare e guarde nos piores momentos da vida.  



Crónica escrita em 5 de Abril de 2002
Publicada em "AINDA NÃO" - 2007

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