QUANDO A CIDADE TEM CORAÇÃO

As cidades, as vilas e os lugares em que vivemos, convivemos e trabalhamos devem ter algo de genuíno, cativante e diferente para que os possamos amar. Não é impunemente que nos dedicamos a uma terra, mesmo àquela que não nos viu nascer, e lhe devotamos uma peculiar afeição, ou, pelo contrário, lhe somos relativamente indiferentes e nunca a sentimos como nossa, nem a adoptamos plenamente.

Para nos sentirmos completos, como seres humanos e cidadãos, temos de trazer um lugar no peito, uma especial preferência por uma paisagem ou recanto, um fascínio por espaços do nosso quotidiano, onde espalhamos emoções e vivências, ou, quando mais não haja, podemos carregar uma saudade indizível por um sítio que não se visita, a não ser na memória.

Para nos sentirmos vivos e actuantes, há que ter a percepção clara de que a urbe que nos acolhe também pulsa e tem um coração.

Penso mesmo que o diálogo interior que estabelecemos com o horizonte, o rio ou o mar, a montanha ou o planalto, os parques, os monumentos e os jardins, a estatuária e toda a panóplia de artefactos e símbolos da cultura e do património das nossas cidades é fundamental ao equilíbrio e à serenidade dos seus habitantes. Daí que se fale hoje, e de um modo tão premente, em qualidade de vida, um conceito que deverá relacionar-se, não com um “ ter mais”, mas com o “ter melhor”.

O homem, rural ou urbano, tem direito a um desenvolvimento integrado que só será alcançado quando viver em aglomerados que, simples ou complexos, sejam dotados de uma organização social madura e proporcionada às condições de trabalho, de salubridade, de comunicação, de recreação e cultura que lhe permitam a fruição dos bens materiais e imateriais, lhe garantam a possibilidade de intervir na “coisa comum” e lhe proporcionem uma convivência sustentada. 

De resto, na fundação das cidades, houve sempre uma história, uma necessidade e um motivo. A cidade, entendida na sua acepção mais ampla de conjunto organizado de cidadãos, sempre se configurou como um organismo com funções temporal e espacialmente definidas.

Na civilização helénica a polis era um território, não muito extenso e de base agrária, que compreendia a cidade, com o seu lar e o fogo sagrado, a praça pública, onde se realizavam as transacções, e as repartições de magistrados. Era um espaço onde todos os cidadãos exerciam os poderes legislativo, jurisdicional e administrativo, de forma rotativa.

Já em Roma, a urbs era a zona habitada, o local de reunião e de domicílio das pessoas e das famílias que se congregavam em fratrias e tribos e que tinha, na sua génese, a civitas, conceito intimamente relacionado com a unidade religiosa e política dos seus membros, todos ligados pelo mesmo culto dos Lares, Manes e Penates, ou seja, da Família, dos Mortos e do Lar.

Depois, vieram os burgos, os locais onde as pessoas ameaçadas pelas guerras dos senhores feudais da Europa medieva procuravam asilo, junto de um chefe. As razões que originaram o nascimento dos aglomerados, nos mais diferentes espaços e épocas, sucedem-se interminavelmente, ao longo da História. A peregrinação, as universidades, a necessidade de defesa do território, o comércio desenvolvido na proximidade do mar ou junto das grandes vias de comunicação, as feiras e mercados, o turismo, a instalação de grandes unidades industriais são, entre outros, motivos mais do que suficientes para atrair cidadãos e fixá-los a um território.

Mas a cidade tem de ser mais do que um amontoado de estruturas e um amontoado de gentes, a crescer sem ordenamento, sem planos e sem uma complementaridade de funções. Pese embora os Planos Directores Municipais e os demais instrumentos de ordenamento do território, ainda sentimos que as nossas cidades não são espaços aprazíveis.

Isto porque:
A rede viária e o sistema de acessibilidades se encontram fragilizados ou são rudimentares,
Não dispomos de meios alternativos de transporte céleres e eficazes,
Não há zonas verdes bastantes onde as crianças possam dar largas às suas brincadeiras e os adultos preencham o seu ócio com actividades lúdicas e de lazer,
Não existem os equipamentos sociais necessários e indispensáveis à valorização das capacidades artísticas, desportivas e criativas dos seus residentes,
É escassa a animação sócio-cultural,
Sentimos insegurança,
Enclausuramo-nos em centros comerciais, verdadeiras catedrais do consumismo,
E não temos uma praça pública autêntica, onde nos abrigamos e onde algo acontece.

Porque não ouvimos palpitar o coração das nossas cidades.
Na maioria das vezes este coração não pulsa nem existe.
Esta constatação é pesada para os que repartem a sua vida entre idas e voltas e preenchem o tempo com viagens para as megapolis, onde trabalham, e para as suas pequenas cidades satélites, cinzentas por excesso de betão e ausência de cor, onde estão instalados os dormitórios das famílias.
Para esta população, a mobilidade tem um preço: depois de tantas corridas, pouco ou nada sobra para viver e conviver civicamente, para participar nas colectividades e para celebrar a própria vida.

Sabemos que pode ser diferente.
Que há outros lugares onde acontecem momentos mágicos, mesmo no bulício das metrópoles ou na pacatez do interior.
Ao balcão das bodegas típicas, e no alarido ensurdecedor de conversas cruzadas, podemos saborear tapas e partilhar um diferente estilo de vida.
Quando rasgamos pequenas multidões que deambulam, conversando pela noite dentro, ou se mantêm firmes, em filas intermináveis, para comprar os seus ingressos em espectáculos, surpreendemo-nos com tanto entusiasmo.
Sempre que, em manhãs de Domingo e mesmo que os termómetros rondem temperaturas negativas, damos de caras com uma praça onde tudo se vende e se troca, desde flores a cachorros e quinquilharias, não conseguimos disfarçar o nosso encantamento.
E que dizer daquelas livrarias do Quartier Latin, que nos levam à contemplação etérea?   

A folia, a extroversão dos grupos de todas as idades que invadem a Plaza Mayor, em noites de Entrudo, disfarçados a rigor para celebrar o Rei Momo, deixam-me absolutamente sem palavras, tamanha é a alegria!
Há momentos bucólicos, quando avistamos grupos que envergam o traje do Tirol, para subir a montanha, os minutos de rara elegância, sempre que namoriscamos as montras de chocolates em Salzburgo, com Mozart a ecoar na imaginação; as praças onde há música e saltimbancos, alfarrabistas e pintores, populares a jogar xadrez, com peças gigantes, forasteiros a aprender como se vive em terras diferentes.
Como resistir a Veneza, e à sua Piaza de S. Marcos, onde bebericamos um Martini entre tanta riqueza histórica e suportamos, com agrado, a ondulação repentina provocada por uma ambulância que sulca veloz os seus canais e nos molha por dentro, até ao âmago do nosso contentamento? 

São estas cidades que temos de construir para nós.
São estes os lugares que têm alma e um coração secular, que bate tão forte que nos faz apaixonar... perdidamente!


 Crónica publicada em jornal no ano de 2001, e no livro de crónicas "Ainda não", em 2007

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