AROMAS, SABORES E RECEITAS DO CORAÇÃO
Publicada a 30 de Março de 2001 em jornal concelhio.
Livro de crónicas "Ainda Não" - 2007
Livro de crónicas "Ainda Não" - 2007
Penso que não haverá ninguém que não tenha arquivado, num cantinho da sua memória, reminiscências de perfumes e sabores, cada um deles indissociavelmente ligado a um momento vivido e que queremos reviver.
Somos criaturas que coligem impressões díspares, seleccionadas de acordo com critérios estritamente pessoais, optimistas ou não. Daí, que possamos reagir, perante as situações mais caricatas ou adversas, de modos tão diferentes.
Uns de nós são positivos e para eles nada melhor que uma sonora e fecunda gargalhada, daquelas que contagiam quem quer que seja, por mais insólito que seja o momento. Outros, os negativos, são os que soçobram, os que só captam o lado escuro das coisas e da vida, desperdiçando este bem que, por tendência, se rarefaz.
Há os que cultivam a pior forma de saudade, à guisa de faduncho, do drama de sangue e alguidar, sempre com um coitadinho a pular dos lábios para fora. Aqueles que estão sempre aos ais, eternamente insatisfeitos com a vida, sem tenacidade ou coragem para arregaçar mangas e fazer um braço de ferro com ela, para travar um bom combate.
Depois, há os outros. Os que estão sempre leves, imponderáveis, e que habilmente fecham em pequenas gavetas os incómodos e os receios, aguardando melhor momento para solucionar a crise, como que inspirados pela emblemática conclusão de uma Scarlet Ohara que, na neblina profunda de uma noite, não perdeu a esperança no novo dia que amanheceria.
Provavelmente, carregamos todos esta dicotomia e reunimos as múltiplas qualidades e estados de espírito, num só corpo. Hoje, afortunadamente, já não corremos o risco de sermos avaliados segundo a máxima de uma moral bolorenta que rezava “muito riso, pouco siso”, nem somos forçados a coabitar com a nostalgia, como se a mágoa fosse o toque chique e discreto da burguesia.
Conquistámos o direito à irreverência, à espontaneidade e à alegria, que são tragos de água matinal. Mas, lá no fundo, há sempre uma pontinha da boa saudade que nos transporta aos sons, aos sabores e aos aromas do passado ou, o que é ainda mais bizarro, antecipa a nostalgia do futuro, talvez por não termos aprendido a saborear a plenitude do momento.
Como não escapo às leis da memória, chega-me o perfume agridoce daquele arroz de tomate, a transbordar na calda e a fumegar da panela, na cozinha dominada pelo lume de lenha e pelas raparigas minhotas, que nos sacudiam logo à entrada. E a alegria ruidosa dos convivas que veraneavam lá pela quinta do Covêlo, em Castelo de Paiva, a espiar, pela porta entreaberta, a azáfama das moçoilas, de rostos vermelhos e luzidios, a confeccionar aquela polpa rubra e aromática onde os grãos de arroz cresceriam, para nosso divinal deleite.
Tal como o grande Eça descreve, este simples manjar só se torna grandioso nos ares puros de uma aldeia remota e, até hoje, ainda não consegui replicar esse arroz real, na cidade.
E os doces?
Quando se aproximava a Senhora do Desterro, era um “ver se te avias”. Para o arraial tínhamos de apresentar uma mesa farta e nutrida de bolos e tortas. Aquilo que nos faltava em engenho culinário, sobrava-nos em imaginação e improviso. Não havia compotas nem frutos que escapassem...
Todos acastelados sobre bases e massas invariavelmente iguais, dávamos a missão por terminada quando conseguíamos um painel policromático, onde os morangos, os pêssegos em calda, as amoras, os cremes pasteleiros e as natas montadas proporcionavam um agradável prazer aos olhos...nem que fosse a custo da monotonia do paladar.
Há ainda aquele cheiro do linho, tascado ou bordado junto ao tanque, com o coaxar de rãs sempre prontas a saltar. Eram tardes Camilianas, em que se lia ou se prendava o enxoval, e em que nos deliciávamos com o farnel de pão saloio, chouriço e bôla de carne, tudo caseiro.
Os milhares de sons e ruídos também povoam o coração.
Como aquele sussurro, ao princípio débil, depois transformado num rugido, a anunciar a proximidade do açude, para onde os meus braços juvenis remavam, e dentro do barco a minha avó, senhora pesada e de pouco equilíbrio. Uns metros mais adiante...e lá se voltaria a frágil embarcação!
E aí... meu Deus! Toca a remar, com todas as forças redobradas contra a correnteza que, a vingar, nos encharcaria até aos ossos!
E ainda ecoam os gritos estridentes que fazíamos soltar aos tios da província, pelas noites dentro do Verão, provocados pela brincadeira de um triunvirato ocioso que se entretinha a lançar, da exígua janela de um sótão para uma chaminé, papelotes agarrados ao anzol de uma rudimentar cana de pesca.
Lá em baixo, nos degraus de madeira, o pânico da tia e da avó que punham a conversa em dia e já imaginavam os ratos em correria; cá em cima, nos quartos, os risos abafados da garotada, com o papo cheio de torradas bem untadas de manteiga e mergulhadas em chá, para amansar o prelúdio do sono.
E as lutas titânicas por causa de uma melancia, que só tinha um “coração”, indivisível pelos tiranos comensais?
E as uvas nos lagares, a pisa, as canelas pretas, os sons da concertina? Ainda hoje sinto um inconfessado receio de ver emergir, daquela papa de mosto e grainhas, um bicho semelhante ao do Lago Ness.
Compotas atrapalhadas,
Matança do porco e salgadeiras,
Enchidos e seus preliminares, tudo como manda a tradição,
Cerejas colhidas à custa de muito perigo,
Ameixas maduras e cadentes,
Laranjas colhidas pelo meu avô, empoleirado no escadote,
Num equilíbrio mais que precário,
Sempre empolgado pelo prazer da poda,
Enchem-me, ainda, de perfumes e aromas.
Espuma das ondas do mar,
Bolos de areia que faço com a minha filha Renata e fiz já com o João,
O capim, depois da chuva, a relva recentemente cortada,
A flor da laranjeira e a malva que corto, às gaipas,
O pirão, em bolas fabricadas com as pontas dos dedos,
O caril, óleo de palma e a muamba,
Uma colectânea de texturas e sabores inconfundíveis.
São ingredientes, cada qual com o seu aroma, perfume e travo, que a vida mistura a seu belo prazer.
São as receitas que, muitas vezes, não sabemos repetir, porque estão escritas no coração.
Outras ainda nos reserva a vida, esse festim inesperado que Epicuro não desprezou por nela reconhecer o começo e o fim de uma existência feliz.
O oceano Atlântico, cruzado vezes sem conta.
Uma memória doce e salgada.
O perfume de Coimbra e o doce sabor da Amizade
Os tios, ainda jovens, na praia.
Com eles pude saber a que cheiram os parques florestais e a água do rio.
Ficou o som das gargalhadas, o cheiro dos livros, a cor rubi das melancias.
Para sempre, o sabor de tardes livres conversando na areia.
A Gica, que vive no meu coração.
O brilho da Alegria é uma Luz constante.
Tílias e alfazemas na Senhora do Desterro.
O azul dos olhos da Cris e da Suzi.
O cheiro da urze que desponta.
O calor do sol.








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