AS DUAS FORMAS DE ESTAR NA VIDA
Crónica publicada em jornal, em Julho de 2001
Publicada no meu livro AINDA NÃO (2007)
Nós vamos viver, mas o mundo não há-de sobreviver”
Publicada no meu livro AINDA NÃO (2007)
“Se eu tratar da minha vida e tu tratares da tua
E não vivermos para satisfazer as expectativas um do outro,
Nós vamos viver, mas o mundo não há-de sobreviver”
Claude Steiner
É por demais evidente que há muitas formas de estar na vida, mas, depois de muito matutar, só me ocorrem duas.
A comprometida e a displicente, para não dizer mesmo a egoísta.
Há um momento para todas as coisas. Um momento em que desejamos aprender ou ter acesso ao conhecimento, constituir família, ter sucesso na profissão, ensinar o que sabemos e transmitir as nossas experiências, intervir na comunidade e nas suas organizações, cooperar na mudança, investir ou aforrar, viajar e alargar horizontes, conviver e ter amigos, entre outros propósitos para viver.
Inelutavelmente, cada um de nós é impelido pela vida a fazer o seu próprio percurso, aquele que se escolhe e persegue com todas as forças ou que simplesmente se aceita, sem objecções de grande monta.
Mas, em qualquer caso, a opção nunca é inocente.
Porque podemos escolher e lutar. Porque temos autonomia para estar no mundo e com os outros, numa perspectiva de que “tudo tem a ver connosco” ou, pelo contrário, de que “nada nos diz respeito”, salvo os nossos próprios interesses.
Por isso, há os idealistas, com ilusões ou sem elas, os que são determinados e se batem pelas suas convicções, agindo com uma vontade de ferro, capaz de “mover montanhas”. Estes tornam-se generosos e costumam partilhar o que têm: as alegrias e as decepções, as boas e as más vivências, o conhecimento e a dúvida. Para eles, a vida é um bom e constante desafio, e convertem os fracassos em oportunidades inesperadas.
Na outra banda, estão os que vivem numa concha, os que votam uma dedicação e empenho exclusivos às suas pessoas e aos seus objectivos individuais, e que olham o resto do mundo com relativa indiferença e entorpecimento.
São os que tendem a excluir os Outros da sua órbita e encaram a vida como um concurso permanente, onde só existem adversários. Por julgarem que a dádiva empobrecerá o seu grau de competitividade, vivem sem dividir e sempre a ocultar e, em casos extremos, não olham a meios para atingir os fins.
Estes dois modelos são recorrentes.
Com a família, com os amigos, nas empresas, com o dinheiro e com os projectos, na actividade societária, pode adoptar-se qualquer uma das atitudes. É tudo uma questão de carácter, sensibilidade e cultura emocional.
Somos capazes de sacrificar os que amamos, privá-los de bons momentos, não estarmos com eles nas horas certas, não sermos as testemunhas privilegiadas das suas conquistas nem reservarmos um abraço para quando vacilam, só porque damos prevalência a tarefas mil. Todas em prol do “sucesso”.
Inversamente, podemos abdicar de uma hora de silêncio, de uns minutos de privacidade, que tanta falta nos faz, para dividir o nosso tempo de ócio.
Se assim for, damos connosco a construir, com toda a naturalidade, as teses e antíteses das nossas relações e a alinhar a argumentação que valoriza o diálogo e reduz as fracturas emocionais que todos conhecemos.
A pouco e pouco, arrecadamos um tesouro, feito de “instantes de felicidade”.
Em matéria de amizade, há quem prefira cultivá-la só nas horas boas, quando não há contrariedades por perto e tudo brilha no seu esplendor, incluindo festas, almoços, confraternizações ou homenagens.
Ou há quem não ache fadiga na dura tarefa de se ser o confidente de todas as ocasiões, o leal conselheiro que não se furta à crítica exigente, escolhendo a palavra branda, e que guarda prudente sigilo do desespero confessado ou do infortúnio do seu amigo.
Nas comunidades e nas organizações encontramos o mesmo cenário.
Lado a lado, sobrevivem os que se mantêm fiéis às promessas e continuam sensíveis a um “mundo real” e os que não passam de mortos-vivos, sem empatia pelos Outros, continuando a deter o poder, pelas benesses que dele retiram.
Quanto mais existo, mais aprendo que há quem se vire de frente para a vida e quem lhe volte as costas. Que é como quem diz, há quem decida converter-se numa “pessoa emocionalmente educada”, sem receio de perder a sua reserva íntima por estar com os outros, incondicionalmente ou não, e quem prefira continuar só, a remoer agonias, as suas e as dos outros.
Eu opto.
Com dificuldades quotidianas, mas vou resistindo.
Porque acredito que há um tempo para semear e um tempo para colher.
E, com o tempo, aprendi que investir nos afectos, nas emoções e nas relações vale mais que todo o sucesso que puder acumular nas outras áreas da minha existência.
Como Claude Steiner diz:
“A longo prazo, uma vida verdadeiramente produtiva exige que a informação emocional esteja incluída nas nossas escolhas”.
Tudo o que tivermos dado, livre de qualquer interesse ou retribuição, constitui a melhor forma de enriquecermos como Pessoas.
Nada é mais gratificante do que possuirmos memórias felizes e uma colecção de momentos tão profusos e vivazes que continuam a dar significado ao modo como estamos na vida.
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