A FESTA MAIS POPULAR DO PORTO


 
Crónica publicada em jornal a 27 de junho de 2011

Coligida no livro AINDA NÃO (2007)



S. JOÃO DO PORTO

DÁ CÁ UM BALÃO PARA EU BRINCAR ...



    A melodia e os versos bailam no nosso imaginário colectivo.

            Vasco Santana, que tinha tanta gordura quanto talento, e a irrequieta Beatriz Costa faziam o par de enamorados que seguia na marcha, com arco e balão, em cenas de ciumeira de trazer por casa.

            Era a noite do santo popular de Lisboa.

Nós, aqui no Porto, continuamos a celebrar o nascimento de S. João, o último Profeta do Antigo Testamento, cuja missão foi a de anunciar a vinda do Messias.

            Com alegria a rodos, o cheiro do manjerico, o alho-porro e os balões de papel iluminados que lançamos ao céu, na madrugada do dia 24 de Junho, lá vamos rodopiando de um bailarico para o outro, no meio da algazarra dos foliões.

            Todos de nariz espetado no ar, enchemo-nos de júbilo quando aqueles artefactos voadores ganham altura e se cruzam por baixo das estrelas, e por cima dos telhados. Nesta noite a cidade tem mais luz, tantos são os OVMI (objectos voadores muito identificados) que proporcionam esta alegria tão singela.

        
            A noite de S. João foi, e será, mágica.

          Para as crianças que se extasiam com o foguetório e ficam maravilhadas com os pontos de luz, sobre as suas cabeças.

Para os jovens que aproveitam todas as brechas na vigilância paterna para conquistarem uns breves momentos de alforria. A festa foi sempre o melhor pretexto para chegarem “às quinhentas”, depois de calcorrearem as ruas e avenidas apinhadas de gente - a de dentro das muralhas e a forasteira - e de terem martelado cabeças ilustres, ocas, carecas e cabeludas.

            De quando em vez há quem leve mesmo a mal!

            Longe vão os tempos em que o perfeito cavalheiro dava a cheirar um cravo ou uma pluma borrifada de perfume, que era a “deixa” para o galanteio ou a brejeirice.

Seja como for, o S. João valerá sempre a pena!

O Santo, que viveu uma vida austera e arredada das coisas profanas, espantar-se-ia com tamanha farra! Talvez seja por ter tido morte tão crua, já que Herodes o mandou degolar, que os homens lhe devotam uma afeição tão peculiar e o recordam com tanta alegria. Com uma pontinha de exagero, é certo, que nunca foi bem visto pela Igreja, mas que ela nunca conseguiu controlar, porque em matéria de cultos pagãos é o povo quem mais ordena. E, com a festa, sempre se aproveita o ensejo para celebrar o solstício, desde os tempos mais recuados da História.

Por isso, é com muita sardinha assada, muito vinho a jorrar do pipo e a típica fartura que as gentes do Norte comemoram o seu Santo. Há ainda quem não se esqueça da cascata, bem engalanada e cheia de figurinhas de barro pintado, encastoadas no musgo verdinho, com cordeiros e pastores, açudes e moleiros, e o murmúrio da água fresca a correr.

 É assim que recordo o S. João da minha meninice, como era festejado na casa de meus avós, porque, ali, aos santos populares nada podia faltar.

Lá ia na rusga, aos molhos ou em cordão, sobressaltar os passantes e dar-lhes com o alho. Pelo caminho, comprava-se a alfazema com que, depois de seca, enchia saquinhos de cetim, para perfumar gavetas de roupa. Voltávamos de madrugada, estafados, mas felizes.

No rescaldo da festa, só sobrava uma centelha de luz, um pedaço de fôlego para irmos até à Rua das Fontaínhas, onde o padeiro esperava com a fornada da manhã. Então, esparramados pelas escadas de pedra do jardim da minha avó, onde a briosa cascata do meu avô se movia com os seus maquinismos, tragava, com o meu grupo, um manjar dos deuses: pão morno generosamente barrado com manteiga e uma chávena do inigualável café, providenciado pela minha avó, que estava sempre de atalaia no seu posto, aguardando a chegada da prole numerosa que a neta arrastava para aquela casa, que era de todos.

Como serafins, víamos romper a madrugada.

Por muito que o sono pesasse, nunca adormeci sem inspeccionar o desenho que a clara de um ovo deixava no copo de água, à luz do luar. Era a Tradição, e eu acreditava, que ali encontraria uma letra e que poderia ler, então, o nome do meu amor.

São estas noites mágicas que ficaram.

Hoje, mesmo sem rusgas, é nos olhos das crianças que vejo a mesma luz. O brilho dos balões iluminados que sobem na noite quente são a promessa, a garantia de que, se os anos passam, a alegria ficará intocável, como sempre.


Iva Carla Vieira


    

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