A GRANDE MURALHA DA CHINA

Agosto de 2007
A Grande Muralha, uma serpente imensa e adormecida sob o calor do meio-dia. 




São aos milhares os visitantes que deambulam pela grande muralha.
Numa espécie de ritual, cumprem a subida penosa, debaixo de um calor asfixiante e um ar rarefeito, para que os olhos vejam, e o corpo sinta, a grandiosidade da obra.
  



Íngreme e árduo é subir...ainda que apenas 100 metros da Grande Muralha.
E a descida também não é fácil.
Mas vale a pena, pela certeza de que, diante dos nossos olhos, está uma das maravilhas do mundo!
 










O sol queima.
Os degraus de pedre milenar são o repouso que se aproveita.




Crónica publicada em jornal sob o título:


CADERNOS DE VIAGEM (4)

A GRANDE MURALHA: UMA NOVA MARAVILHA

Dizem que é a única obra saída das mãos do homem que se avista da Lua. Também este facto foi já desmentido, há tempos, por uma missão espacial. Para o caso, é irrelevante, e não passa de mero episódio especulativo, sabe-se lá para satisfazer vaidades nacionalistas.
Ao quarto dia, abalámos para a Grande Muralha, a 70 quilómetros de Pequim. Uma viagem calma, feita pelo cedo da manhã, para evitar as multidões que, como verifiquei, são mais densas que as ondas do oceano profundo. Quilómetros de camionetas, repletas de chineses que também vão calcorrear esta nova maravilha do mundo, para seu grande orgulho. Não se importam, também eles, de fazer a pé, e durante horas, se for necessário, o último percurso que os separa da Muralha da China, quando o parque para o estacionamento fica muito lá trás.
Pelo trajecto, a constante dos jardins primorosos, com uma geometria fascinante, quase tirada de Versailles. Pejados de esculturas pedagógicas ou meramente recreativas, com pontos de água ou fontes generosas, são um festim para os olhos. As veredas bem tratadas, sem erva daninha que espreite, sem capim que invada a faixa de rodagem e, para meu espanto, quilómetros de vasos multicolores, eles próprios a dar forma a jardins que só não são da Babilónia porque não se suspendem. Jazem na berma das estradas, sem que alguém se atreva a subtrai-los da ordem por que foram dispostos.
O trabalho de jardineiro é braçal e penoso, com homens e mulheres acocorados sobre toda a planta dos pés, num equilíbrio perfeito, a manusear alfaias, vassouras e pás. Mão-de-obra é o que a China tem de sobra e, como aprendi, os chineses dão graças por terem um trabalho, ainda que mal pago, porque se recordam, com nitidez, do tempo da fome dos pais ou da sua própria escassez de meios que os impele a lutar, com todas as forças, pela sobrevivência. 
Não tardou muito a avistar os primeiros lanços da Grande Muralha, imponentes, como serpentes no dorso de montanhas. Com a manhã jovem, praticamente a despertar, o espanto redobra à medida que se galga a estrada e vemos aparecer, por detrás de novos picos, aquela emblemática construção militar que todo o mundo conhece, das fotografias encantadas.
Nunca se perde a noção de que é uma fortificação. Construída para garantir a defesa de uma China isolada - que os Chineses consideravam “a única civilização abaixo do céu” - seria natural que se quisesse resguardá-la dos apetites invasores dos povos vizinhos, mas, acima de tudo, entrincheirar este “Império do Meio”, num espaço murado por cerca de 6.000 quilómetros de muralhas e ameias, entrecortadas por torreões enormes, onde se guardavam os víveres e as munições e se aquartelavam as tropas defensivas. As torres de controlo serviram para manter um sistema eficaz de comunicações (através de sinais de fumo, durante o dia, e fogo, durante a noite).
Desde 1987 classificada como Património Mundial pela UNESCO e guindada a Maravilha do Mundo, a 7 de Julho de 2007, avistar a Grande Muralha é uma experiência singular, irrepetível e que nos deixa sem palavras. Descrevê-la é uma tarefa impossível, porque o que se estende à frente do nosso olhar é uma corrente interminável de pedra alta, com dimensões esmagadoras, que sobe até às mais inacessíveis montanhas e desce, às profundezas dos vales, para voltar a trepar até à crista de uma nova montanha, sempre sem ter fim.
Perante esta obra, quedamo-nos paralisados a pensar: como terá sido possível o esforço humano erigir, contra as próprias leis da natureza, esta força abrupta de pedra? É certo que foi a mão de escravos que a construiu, e que foram sepultados aos milhares os operários que nela trabalharam, lançados, como argamassa, para lá ficarem na sua morada eterna; há ainda restos visíveis das suas ossadas, como seria de esperar.
Em pleno século XXI, surpreende-nos este denodado e inimaginável trabalho braçal, como nos intrigam as capacidades e conhecimentos matemáticos e astronómicos para erigir as pirâmides das civilizações Maia e Egípcia. Fantástico, é podermos experimentar, com o corpo e a caminhada, como terá sido viver, e pugnar, na Grande Muralha da China. Numa das suas entradas, que hoje estão repletas de lojas de souvenirs, de vendilhões de artesanato e bebidas e de bares, no meio da populaça, já a cheirar aos estranhos aromas almiscarados, uma mistura de suor acumulado, humidade e especiarias, temos de ir, a passo lesto, para escalar, pelo tempo que a nossa resistência permitir.
Depois de umas breves indicações do guia, para sabermos o caminho do regresso, lá fui, com gente do meu grupo, já afoita e afeita a outras campanhas valorosas, noutras partidas do mundo. Piamente acreditada que seria capaz de percorrer uns bons quilómetros, porque me afeiçoei ao Caminho de Santiago. Ia, assim, leda e confiante de que, não seria mel, mas poderiam ser “favas contadas” trepar um pedaço do pano da Muralha. Depois de uns degraus valentes, eis-me a subir, em ângulo pronunciado, sempre em pavimento escorregadio e deslizante, e debaixo de um sol que já queimava. Por todo o lado, pela direita e esquerda, uns a subir e outros a descer, com as devidas cautelas para não nos embaraçarmos, de pernas e braços, e irmos por ali abaixo, desenfreados, a rolar e a partir ossos.
A subida fez-se à custa de muita água e respiração ofegante, de algumas pausas, nas ameias, à míngua de sombras avaras ou a aproveitar aquela que nos dava a aba do chapéu; a escapar do vendedor que nos atira, literalmente para a cara, lenços de caxemira, guerreiros de terracota, livros dos monumentos e outras recordações que, ali transaccionadas, correm o risco de serem compradas a peso de ouro, porque é vulgar o turista ser “enrolado” com notas falsas.
Passo a passo, a vencer a gravidade que nos suga, inexoravelmente, para o centro do planeta, lá subi, com as pontas das sapatilhas bem cravadas nas pedras irregulares, a ver outros descer, pelo lado contrário, com o corpo num plano inclinado a mais de 45 graus, em relação ao pavimento da Muralha.
E preferi parar! Não estava ali para vencer barreiras, como aquele reclamo publicitário em que um automóvel veloz, como uma bailarina, rasga a Muralha. Tinha ido para fruir. Por isso, sentei-me num degrau, e fiquei, por longos e inenarráveis tempos, a contemplar a Obra, a Natureza e o Prodígio.
Agora sim! Estava na Muralha da China, na lendária construção que se avista do sistema solar. Com o olhar, mais do que com uma câmara fotográfica, gravei este tempo irrepetível, em que me senti, ao mesmo tempo, esmagada e triunfal.

Iva Carla Vieira

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