O CAMINHO
Depois de um almoço frugal no albergue de S. Pedro de Rates, batiam as 14 horas e o sol não dava tréguas. O ar quente permitia adivinhar a penosidade do resto do caminho, feito de pequenas estradas em terra batida, sem sombras, e a cruzar extensas propriedades, com vinha e olivais.
O João, com a bandeira portuguesa no seu bordão de peregrino; o Afonso e o Walter, brasileiro de S. Paulo, que fez o caminho francês e seguiria para Roma. Um estilo de marcha compassado, firme e inspirador. No grupo, lá estavam o bom Censo, a Adriana, a Luísa e o Zé Manel.
Com Ponte de Lima à vista, lá se fez nova paragem; ficámos a ver o rio, em cascata suave, sentados num banco de jardim, como passarinhos em arame, e para ali estivemos a divagar enquanto o corpo repousava da dura provação.
Novo dia. Serra da Labruja. Um a um, fomos subindo os dois últimos quilómetros íngremes e extenuantes, atravessando valas com pouco mais de vinte centímetros de largo, forradas com silvas e calhaus que se desprendem com facilidade; para trepar, fincamos os pés, ora com os calcanhares, ora com os dedos, cravando bem no chão as botas e os bordões.
Recobrámos forças na Cruz dos franceses que assinala a emboscada da população às tropas retardatárias das invasões napoleónicas de 1809. Os peregrinos registam aqui a sua passagem, depositando pedras e formulando desejos.
Os nossos grandes esteios: a Ordem de Malta e os estudantes de enfermagem, servindo peregrinos no tempo que subtraem às suas férias escolares, sempre com um sorriso nos lábios e um olhar meigo, a minorar o sofrimento dos que fazem o Caminho.
Uma bela etapa do caminho. Seguimos pelo vale do rio de Gândara, e as botas afundam-se nos charcos. Os Cruzeiros em granito multiplicam-se, preciosamente esculpidos. Saímos e entramos com frequência na estrada nacional, mas atravessamos aldeias limpas e campos cuidados. Numa escola, as crianças saúdam-nos com cartazes escritos em idiomas vários. Tirei esta fotografia que não consegue captar a beleza e a paz inteira do lugar.
O dia corre e a contagem decrescente começa. Os marcos com a vieira do Apóstolo lembram-nos que estamos perto da chegada.
Às oito horas e meia da manhã, saimos de Milladoiro, para fazer a derradeira caminhada, com cerca de 7 quilómetros. Depois da descida, toda a gente se concentra na Porta Faxeira, a entrada portuguesa, já em pleno casco histórico de Santiago de Compostela. É o momento mais esperado, o momento da chegada, para as últimas fotografias com o corpo de voluntários e os companheiros de peregrinação.
O grupo entra pelo Caminho Português, batendo os bastões nas pedras do caminho, a cantar o Hino da Alegria. Ninguém será capaz de dizer as dores físicas ultrapassadas. Frescos como rosas orvalhadas. Felizes como nunca.
Na praça do Obradoiro, vénia a Santiago e o pedido para entrar. Um abraço com efusão! Profundamente maravilhados por termos chegado.
Na Oficina do Peregrino apresentamos credenciais e levantamos a Compostela, para voltarmos à Catedral, entrando pela Porta dos Portugueses
Caldas de Reyes.
Reza a lenda que o Apóstolo terá mergulhado os pés no dia 24 de Julho e sarou as feridas da caminhada. Esta é a fonte das Burgas onde gosto de molhar os pés na água escaldante e regeneradora.
Quis ficar por ali, a deambular nas ruas de Santiago de Compostela.
Depois de muitas dezenas de visitas turísticas, senti a condição de peregrina e almocei divinamente, sentada a olhar para as torres da Catedral.












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