O DIÁRIO DE UM PEREGRINO

IX Peregrinação Jacobeia - 2006
Algumas notas breves de um diário de peregrino
  

            Fazer um diário foi um dos conselhos que li, quando me preparava para fazer o Caminho. Imaginei até que seria capaz de registar com minúcia os minutos, os locais, as impressões e os estados de alma, como se estivesse num laboratório a recolher os dados de uma experiência.

            Redondamente enganada.

            Também entendi que, para mim, não é isso que importava. O essencial seria conhecer os meus limites, aguentar a dor físicaque, naturalmente, atormentaria o meu corpo desabituado de longas marchas, aceitar o companheiro que passa ao lado, pedir auxílio aos mais fortes, aceitar provações, esquecer o conforto, desligar-me, se preciso fosse, das recordações agradáveis dos lugares por onde passava agora, dolorosamente, arrastando as pernas cansadas, debaixo de um sol impiedoso.

            Logo percebi que, mais importante do que elaborar um conjunto de notas cronologicamente alinhavadas, seria estar atenta aos sinais do Caminho e ser capaz de os guardar para, mais tarde, escrever as lições que aprendi. Por isso, nem quis saber do itinerário, de serras, montes ou vales, se seriam vinte ou trinta os quilómetros da primeira das nove etapas. Não seriam estas certezas que me dariam o conforto e o alívio de que precisei.

Uns dias depois, pus o relógio de parte, na mochila, libertando-me do tempo e das suas limitações, especialmente quando aprendi que o caminho se faz caminhando e mais do que preocupar-me com o chegar, era fundamental preocupar-me com o andar.

Acima de tudo, confiei nos passos dos meus companheiros, nas contingências do clima, no uniforme branco e no cinto vermelho dos voluntários da Ordem de Malta, que nos esperavam nos lugares mais inesperados para nos darem o refrigério e a energia para prosseguir.


Uma das primeiras coisas que descobri foi que o Caminho deve ser feito seguindo as setas amarelas, pintadas em superfícies visíveis para o peregrino, como postes de electricidade, bermas dos passeios, muros dos quintais, o asfalto negro. São essas marcas que nos vão levando e que não podemos perder de vista para não nos perdermos, às vezes em sítio inóspito e pouco hospitaleiro.

Não fiz um diário. Fiquei com as memórias mais impressivas que são, apenas, aguarelas do meu Caminho. Tive muitas tentações. Até ao terceiro dia, quis desistir. Olhava em redor, já em plena caminhada, e o sol no zénite sugava as minhas últimas forças para andar.
Interroguei-me, muitas vezes “O que faço aqui?”, e pensei que, afinal, não era esperada no lugar para onde tanto queria ir. 

As botas, novas em folha, no primeiro dia foram grilhões que arrastei penosamente. Houve momentos em que só lhes sentia o peso, como uma tonelada deve pesar. O sol tórrido, como um cão a morder os ombros, que eu tinha de suportar, sem a bênção das sombras ou de uma neblina.

Era a marcha, que apesar de lenta, teria de ser cumprida, para vencer as etapas, uma de cada vez. Era o suor constante que colava a roupa ao corpo e que, mais tarde, aprendi a mitigar com a água das fontes, molhando o cabelo ou apanhando-a com o boné, para a entornar, literalmente, por mim abaixo. Eram os músculos das pernas a doer, a boca a secar, a dúvida de não ser humanamente possível continuar a caminhar, depois dos quilómetros que ficavam para trás.

Que aprendi?

Algumas lições.

No Caminho, no meio da adversidade, é mais fácil saber quem está disposto a ajudar-nos e compreender-nos, livre de qualquer interesse egoísta.

No Caminho, conseguimos despojar-nos do que é supérfluo e começamos a dar importância ao que importa; é como se uma luz nos atingisse e nos fizesse ver que, na maioria das vezes, vivemos na penumbra sem saber.

Pelo Caminho, mesmo sem nos preocuparmos com esse propósito, temos a melhor percepção sobre a verdade e a batota, a autenticidade e a vaidade. Mesmo nos momentos mais difíceis, há quem não consiga pensar a não ser em si próprio.

No Caminho, é mais fácil partilhar o que nos preocupa com os outros e aceitar um conselho.

No Caminho, os dilemas dissolvem-se e, à medida que meditamos sobre o quotidiano, compreendemos quanta energia gastamos inutilmente.

No Caminho, também nos surpreendemos com os Outros: aqueles de quem muito esperamos, pouco ou nada conseguem dar e aqueles de quem nada ou pouco esperamos, podem ser um porto seguro, um abrigo, o bordão que nos segura e nos leva até Compostela. 

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