TERRIVELMENTE HUMANO


António Marinho e Pinto
Bastonário da Ordem dos Advogados



Tocou-me profundamente a crónica de Marinho e Pinto, publicada no JN a 11 de Junho de 2012, com o título Terrivelmente Humano.

Profundamente Humanista, reune as qualidades que todos lhe conhecemos, ainda nos bancos da Faculdade de Direito, em Coimbra.
Conhecedor da História, não esquece as lições do Passado e mantém-se num permanente estado de vigilia em relação ao Presente.

Homem de Letras e amante da Palavra - que domina na perfeição, por se ter dedicado também ao Jornalismo - é com Paixão que agarra os problemas que minam hoje a nossa sociedade e é com Coragem que denuncia erros, vícios e abusos que a todos podem vitimar.

Abraçou a Advocacia e a OA com os valores que, de facto, devem ser os de quem veste a toga, para defender os fracos contra a prepotência, frequentemente gratuita, vã e criminosa dos fortes e poderosos.

Por todas estas razões, é um dever de Cidadania fazer chegar as suas palavras escritas ainda mais longe!

Nesta crónica encontrei alguns pontos de contacto com uma outra, que escrevi e publiquei  com o título "Glosando o mote do mundo". Por isso, e porque subscrevo, ainda, o que nela disse, a publico de novo neste blog, conjuntamente com a de Marinho e Pinto.

TERRIVELMENTE HUMANO
Perante a imensidão da tragédia humana, como reage o homem ao longo da História? Em regra, de duas maneiras: ou aceita o seu destino com resignação e depõe o seu sofrimento na ara de uma qualquer divindade ou então revolta-se.
E quando se revolta ele exprime sempre nesse gesto uma negação. Umas vezes recusa a sua própria existência e nega a sua própria condição humana. Não aceita o lugar que lhe foi reservado na vida e no Mundo e revolta-se contra o seu Deus, usando a única arma que sabe manejar que é a blasfémia. É a revolta existencial que o levará quase sempre ao suicídio.
Outras vezes, porém, o homem insurge-se contra o seu lugar na sociedade. Acusa não Deus mas outros homens e ergue-se contra o soberano.
Empunhando a espada, ele parte para a aventura revolucionária, que não raro o conduza extremos de violência coletiva. É a revolta social que inevitavelmente o levará ao homicídio. (Nos tempos atuais há ainda um "tertium genus": a "indignação", ou seja, uma espécie de revolta domesticada que se esvai nas margens sem quaisquer consequências pessoais ou históricas). Ao escolher a morte como solução, ambos os revoltados (existencial e social) proclamam uma natureza superior à ordem estabelecida.
Insurgindo-se contra ainjustiça e a servidão ambos recusam a condição histórica de dominados. Apenas com uma diferença: enquanto o revoltado existencial quase sempre morre na solidão do seu drama pessoal, o revoltado social acaba, em regra, por subir ao cadafalso, pois só aí, perante a multidão, ele poderá proclamar a condição suprema a que aspira - a de mártir. Ele não ignora que assim vai adquirir uma força superior à do próprio poder que o aniquila. Iluminado por uma intuição terrível, ele sabe que o reinado do imperador termina inexoravelmente com a sua morte, enquanto o do mártir começa precisamente no momento da sua execução. A coroação de um mártir é sempre póstuma e o seu reinado pode estender-se por séculos ou milénios. Um revolucionário mártir é sempre mais temível depois de morto. Quem num gesto derradeiro de revolta dispõe da própria vida responde de forma clara e definitiva a todas as angústias que o atormentaram durante a existência.

Por isso é que ao longo dos tempos os condenados eram, antes de morrer, submetidos aos piores ultrajes e sofrimentos com vista, precisamente, a reduzi-los à condição infame de objetos. Todos nos recordamos dos suplícios que eram infligidos aos condenados antes de serem atirados ainda vivos para as fogueiras da Inquisição.
E isso não aconteceu só na Idade Média, essa longa noite de mil anos. Isso verificou-se aqui na Europa já depois do século das luzes em plena época da ilustração. Estaline livrou-se dos velhos revolucionários bolcheviques, seus antigos camaradas das lutas contra o czar e das jornadas insurrecionais de 1917, cobrindo-os com as piores infâmias. Antes de os matar, obrigou-os a confessar publicamente traições tão abjetas que jamais lhes tinham passado sequer pela cabeça. Reduziu-os, com inimagináveis requintes de cinismo, à condição histórica de coisas antes de ritualizar os seus assassínios em tribunal.

Béria e Torquemada são os dois símbolos mais paradigmáticos dessa racionalidade de condenação com prévia coisificação dos condenados. Eles são os símbolos mais evidentes da abjeção a que pode chegar um poder sem qualquer controlo. Ninguém ao longo da história foi tão eficaz na destruição do que resta de humano dentro de um condenado. Só depois de totalmente aniquilados como seres humanos, só depois de lhes extorquirem a última gota de dignidade é que os deixavam subir ao cadafalso. Mas então já não eram homens o que matavam.

Ninguém foi tão metódico nas estratégias de aniquilamento humano como o foram o estalinismo e o Santo Ofício. E sempre em nome dos mais altos valores. Um invocando os fins de uma revolução libertadora e outro a pureza de uma religião de misericórdia e de amor ao próximo.

Os tiranos e os torturadores devem sentir uma volúpia demoníaca quando ouvem um supliciado a dizer as maiores infâmias sobre si próprio só para lhes dar prazer. Talvez (só) isso lhes permita suportar a sua própria solidão.



A propósito da tragédia, da injustiça e do sofrimento que acossam a Humanidade, uma fotografia do fotojornalista espanhol Samuel Aranda, que ganhou o 55º concurso World Press Photo 2011.

Um retrato pungente, capturado numa mesquita que serviu de hospital.
Uma mulher iemanita segura, no seu regaço, um seu parente (filho?...) ferido nas rebeliões que assolaram o norte de África, conhecidas por Primavera Árabe.
Coberta com o véu integral, que diferença faz de uma Pietà?
Em qualquer lado do mundo, a dor tem o mesmo rosto....

Este documento impressionante não carece de palavras.
É um registo assombroso e desassombrado da permanente violência do homem contra o homem.








GLOSANDO O MOTE DO MUNDO

Crónica publicada em jornal e coligida no livro AINDA Não (2007) 



“Os bons vi sempre passar

No mundo graves tormentos;

E pera mais me espantar,

Os maus vi sempre nadar

Em mar de contentamentos.”



1598- Luís de Camões



Pois é!
Há quinhentos anos atrás, já o nosso grande Poeta vertia todo o seu queixume e desalento em redondilhas que, à luz do nosso século, continuam a ter uma aflitiva realidade. O mote que glosou, com mestria e sensibilidade, a que ele chamava de desconcerto do mundo, mais não traduzia que a sua permanente interrogação sobre a causa de tanto infortúnio e de tanto mal, que via espalhados em seu redor.
 
É certo que não só questionava a “importuna perseguição” de males, a que se via sujeito, como também estranhava o “confuso regimento do mundo”. A verdade é que, volvidos séculos, lemos e relemos Camões, e ficamos estupefactos com a maior actualidade das suas canções e elegias.

E quase acreditamos que a roda da fortuna é, de facto, imprevisível.

E que nós, comuns mortais, somos constrangidos e suportamos o “antigo abuso” dos “homens poderosos”, e todas as mudanças que acontecem, aleatoriamente, e podem dar um rumo drástico ou feliz, o destino de cada um.

A própria vida é rebelde e indomada.

Projectamos, calculamos. Mas esquecemos que há um mar de factores, de casos fortuitos e situações de força maior que escapam ao possível controlo da força e da inteligência humanas. E é perante o poder indomável da Vida que o Homem se reduz à sua condição mais indefesa, como se regressasse ao tempo da caverna, com um medo atávico do relâmpago e do trovão. Basta um cataclismo para destruir uma metrópole ou ceifar milhares de vidas. Basta uma curva na estrada para nos roubar todas as capacidades, e para a vida passar ao nosso lado. Ou a natureza das coisas se vira contra nós ou a sorte se divorcia do destino dos povos.

Mas a análise dos males do mundo não se pode esgotar no supérfluo, na aparência das coisas ou na crença num determinismo. No rigor dos factos, muito do sofrimento individual e colectivo prende-se com a irresponsabilidade, com a ligeireza de ânimo ou o frio desinteresse com que olhamos para o mundo.

O conselho imprudente, a decisão que não foi célere, a justiça que não se cumpriu, a promessa que se adiou, o compromisso que não se honrou, o expediente que tudo ultrapassou, o ressarcimento que foi sonegado, a corrupção que se aceita, a verdade que se evita e a mentira que se esconde, são, entre outras, as ameaças mais temíveis para um mundo que eu gostaria de ver concertado.

Recrudesce a violência, a injustiça e a exclusão e há logo quem, por descrédito nas instituições e por se sentir profundamente assustado, defenda uma justiça privada, como se regredíssemos aos tempos da Lei de Talião, à era do “olho por olho, dente por dente”. O que é feito do funcionamento dos poderes instituídos, do legado das democracias modernas, da trilogia da Revolução Francesa e do seu postulado da Liberdade, Igualdade e Fraternidade?

Conservo ainda a grata memória de um ilustre professor de Direito que, com gesto fecundo e palavra jactante, desenhava nas mentes dos seus alunos a gravura que melhor ilustra a grata missão de se ser um defensor ou Advogado. Era tão abundante a sua adjectivação que podíamos visualizar a imagem de um causídico que, com o seu próprio corpo, se interpunha entre o réu e uma populaça iracunda e ululante, protegendo-o de um linchamento mais que certo.

Porque a Justiça, na sua essência, é um ideal.

Porque ela é, e assim deve prevalecer, como um princípio sagrado orientador das consciências individuais, sempre intemporal e sem se confinar a fronteiras. As portas que os Homens abriram conduzem a um mundo novo, onde não podemos dar tréguas a quem viole liberdades, garantias e direitos fundamentais, dos cidadãos e dos povos.

Por isto tudo, se mais não fosse, urge pugnar por sociedades solidárias, onde todos possam aceder ao bem-estar, à equidade, à participação activa e co-responsabilidade, à qualidade e certeza, e, fundamentalmente, sentir que não serão silenciados, segregados ou enganados pela roda da fortuna.

Ao fatalismo Camoniano, tão ao nosso gosto ancestral, construído sobre muito sangue árabe e o mito sebástico, há que resistir estoicamente, pois se há lei mais determinista é a que nos ordena a felicidade. 


Iva Carla Vieira



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