DA CHINA PARA A EUROPA: AS OLÍMPIADAS
Agosto de 2007
Pequim
Crónica publicada em jornal (Setembro de 2007)
CADERNOS DE VIAGEM (1)
Iva Carla Vieira
Pequim
A China, anfitriã dos Jogos Olímpicos de 2008, preparava-se a todo o custo para revelar ao mundo a superpotência em que se transformou.
Apesar de todo o fascínio que senti, não me poderia escapar o mundo de contrastes, alguns subtis, outros grosseiros, que é a própria China.
O que, na minha óptica, alimenta um impenetrável desejo de conhecer o "império do meio" muito para além dos sorrisos reverenciais e enigmáticos dos nossos hospedeiros, para saber (?) o que move a China do século XXI.
Os preparativos para as Olímpiadas estavam a chegar a bom porto.
Ordem, organização e força de trabalho por todo o lado.
Pequim: o laboratório dos projectos ousados dos maiores arquitectos ocidentais.
Cursos acelerados de inglês para o cidadão chinês comum, para que nada falhasse no dia 8 de Agosto de 2008.
Hoje, no Reino Unido, começaram os Jogos Olímpicos de 2012.
As cerimónias de abertura foram a tradução literal da civilização ocidental que partilhamos.
Naturalmente, não superámos o rigor, a excelência, o preciosismo (elevado à escala da Perfeição) da China do 2008.
Mas o que aconteceu na China, em 2008, foi a demonstração da supremacia económica de um país que, à sua maneira, se adaptou a um modelo de desenvolvimento que não se ajusta a qualquer outro que tenhamos estudado.
A Lei Chinesa não reconhece direitos humanos nem liberdades e garantias fundamentais que nós, os ocidentais, temos como adquiridos.
A extrema riqueza, e a corrupção, proliferam lado a lado com a extrema pobreza.
A especulação imobiliária ameaça os bairros que ocupam o coração da cidade, mas os cidadãos já aprenderam que no associativismo reside algum poder para resistir às investidas da plutocracia.
Os jovens não gostam de falar, em público, de política.
Mas há gerações que questionam.
Ainda há vestígios da revolução cultural, nas marcas físicas que aquela deixou em quem a sofreu.
Mas os ícones do Maoísmo são vendidos como meros souvenirs.
Contrastes que inspiraram a crónica publicada, então, em jornal e que, de novo, publico neste blog.
As fachadas dos grandes edifícios, tão ao sabor das enormes metrópoles.
Aqui, conserva-se a traça arquitectónica tradicional chinesa.
Uma das entradas da Cidade Proibida.
Quem não se recorda de "O Último Imperador"?
Bernardo Bertolucci, aproveitando uma excepcional permissão do governo Chinês, captou, em 1987, imagens belíssimas que “libertaram” este recinto murado, proibido para os olhos dos comuns mortais, e abriu, literalmente, os portões do que houvera sido, durante quinhentos anos, a residência oficial dos Imperadores chineses e a sua “prisão dourada”, onde, perpetuando as regras de uma governação imobilista, se garantia a sobrevivência de um sistema político e social fechado sobre si mesmo.
A presença constante do braço armado do Poder.
E a serenidade de um músico que liberta os sons num dos jardins da Cidade Proibida.
Uma pausa descontraida, num dia de calor agreste...
A Corte de Pequim é a prova clarividente do Poder absoluto dos mandarins que viveram entre colunas de ouro, tronos incrustados de pedras preciosas, biombos de ébano, mobiliário precioso e de grande porte, jarrões enormes de cloisonné, telas e sedas finamente bordadas a ouro, chafarizes em jade, jardins e alamedas frondosas.
Nas cenas do filme "O Último Imperador", estas praças em mármore da Cidade Proibida estão indissociavelmente ligadas à imagem de um rapazinho, destinado a ser Imperador, a pedalar velozmente na sua bicicleta, mas também ele prisioneiro da sua própria condição imperial.
Um ser supremo a quem não coube a graça de transpor qualquer uma das portas do seu palácio.
O Palácio da Harmonia Suprema, com o trono do Imperador, onde decorriam as cerimónias de entronização e as festas mais solenes.
Adornado de riquezas mil, com um estrado elevado, uma escadaria pomposa de mármore, o tecto decorado com dragões e o trono lacado de ouro com nove dragões esculpidos, símbolo do Imperador.
Diz a lenda que era aqui, por trás do trono, que o último imperador (convertido em jardineiro) escondia a gaiola com o grilo e que aquela ainda lá permanece.
Entrada tradicional de um hutong, espécie de bairro onde residem as famílias de Pequim, em pleno coração da cidade.
Os transportes públicos precários, apinhados de gente.
A realidade dura de uma vastíssima franja da população.
Uma família em passeio.
Um Domingo.
As zonas residenciais e comerciais da maioria dos habitantes de Pequim.
Um protótipo que dispensa comentários...
De novo, e por todo o lado da cidade moderna que cresce, os edifícios onde se instalam as multinacionais e as empresas que contratam a nova geração de executivos.
O mais célebre restaurante onde se come o pato lacado à Pequim.
1864 - a data inscrita na enorme placa de bronze.
Com vários andares, este é o lobby onde as reservas são confirmadas pela forma como se vê...
A delicadeza em cada gesto...
O trabalho braçal impera.
Os jardins esmerados, motivo de orgulho nacional, são assim mantidos.
Por todo o lado, este meio de transporte quase anacrónico...
E a beleza eterna, recorrente, celestial dos templos.
Detalhes de uma arte ancestral.
Impossível resistir a tanta beleza!
E a pérola maior de todos os contrastes:
As crianças!
Crónica publicada em jornal (Setembro de 2007)
CADERNOS DE VIAGEM (1)
UMA CHINA DE CONTRASTES
Era muito jovem quando comprei o livro de Alain Peyrefitte, com o sugestivo título “Quando a China despertar... o mundo tremerá”. Em cerca de setecentas páginas, este estudioso registou, com a ajuda de sinólogos e de jornalistas interessados nas coisas da China, as suas próprias impressões, colhidas da viagem que lá fez, pouco antes de se dar como oficialmente acabada a Revolução Cultural encetada por Mao Tsé-tung.
Confesso que nunca tive paciência para rematar esta leitura mas que, por outro lado, também não tive vontade de me desfazer do livro, que para ali ficou, num canto, à espera de dias melhores.
Pouco antes da minha viagem, por mero acaso e quando organizava a biblioteca, fui buscá-lo, por diletantismo, para o que desse e viesse. Num outro recanto, bem debaixo do olho, ali se quedou até ao meu regresso, e agora folheio-o com um encanto que desconhecia então.
É que ler as suas passagens é quase risível, por tanto que a China mudou! Mas a profecia do seu título, essa perdura com o fascínio de sempre. Diz Peyrefitte (e com ele concordo hoje) a páginas tantas:
“Não chega que se possa dizer frequentemente:”Se não tivesse visto isso, não o acreditaria”. Esta impressão experimenta-se na China, incita a testemunhar. É preciso voltar ao mesmo sítio, para medir até que ponto o público ocidental é atormentado por uma miopia feita de preconceitos, de paixões ideológicas e, sobretudo, de ignorância; oscila entre o medo e o entusiasmo, sem conseguir equilibrar muito o seu julgamento.”
O Império do Meio (como lhe chamou Eça de Queiroz no seu folhetim impagável que acabaria no prelo como “O Mandarim”) por ser tão distante, por tão imenso e estranho, não deixa de nos atrair, irremediavelmente.
Contudo, é precisamente quando pisamos o solo da China que despertamos. Federico Rampini também nos brindou, recentemente, com a sua obra emblemática “O Século Chinês”, cuja leitura, feita a posteriori, ou seja, depois de visitarmos a China, ainda que com olhos de turistas, nos causa arrepios, por se tratar de um estudo que se cola tão fielmente à nua realidade social chinesa, que se espraia perante quem vai e perscruta, sem juízo feito.
E é assim, recomendando este livro, com o qual me identifiquei, que vos vou narrar as minhas impressões de viagem por esse enorme e desmesurado, ignoto e misterioso, exótico e estranho país de contrastes, puros e duros, que chegam a doer na alma de um viajante.
Atribui-se a Napoleão Bonaparte o célebre e profético comentário de que, quando a China despertasse, o mundo tremeria. Sem que o tivesse deixado escrito, pensa-se, apenas, que o terá proferido em meados de 1816, depois de ter lido um relatório de viagem do primeiro embaixador da monarquia Inglesa na China, Lord Maccartney.
Também Lenine retomou este pensamento prognóstico em 1923, no seu último texto que intitulou “Menos numerosos, mas melhores”.
Estes pensamentos encerram o próprio enigma que a China ainda representa, em pleno século XXI. Conhecê-la é uma tarefa impossível. Trata-se de um país gigantesco, onde coexistem múltiplas etnias e muitos dialectos e onde o tempo fundiu Confúcio com Buda, à mistura com as heranças culturais com que os ocidentais, a todo o custo, quer pela via laica, quer pela religião, quiseram marcar um território.
A própria evolução da China, nos dois últimos séculos, é o retrato fiel do esforço denodado para acabar com uma sociedade feudal, baseada numa economia assente dominantemente numa agricultura de subsistência, bem como para extirpar a apetência colonizadora de franceses e ingleses, sem esquecer o Japão que a invadiu e formou governos fantoches, bem retratados em filmes como o de Bertolucci, “O Último Imperador”.
De resto, a sombra destes tempos ainda paira no ar, quando, por exemplo, um guia nos diz, simplesmente, que a arte dos bonsai é genuinamente chinesa e foi copiada pelos Japoneses. Pressente-se este ancestral ressentimento, e esta vontade de fazer emergir um modelo de desenvolvimento que é absolutamente chinês.
Mao Tsé-tung, Chiang Kai-shek e Wang Chig-wei, que lideraram os governos que antecederam o triunfo do maoísmo, sempre comungaram da mesma ideia: a de que era imperioso lançar mão de uma revolução nacional, para expulsar de vez os estrangeiros e os Japoneses, e de que a China só poderia ser governada com uma mão de ferro, e por um regime ditatorial e totalitário.
Hoje, volvido mais de meio século sobre o primeiro governo comunista (instituído em 1949) e passados mais de trinta anos sobre o fim da Revolução Cultural Chinesa, a múmia de Mao bem pode dar reviravoltas, no seu mausoléu grandioso da Praça Tian’anmen, que se encontra fechado.
Os olhos do “Grande Timoneiro”, no retrato enorme que pende numa das entradas da Cidade Proibida, vê uma China que desperta para a doçura etérea do consumo, as fortunas emergentes que se encontram já cotadas entre as maiores do mundo, os arranha-céus que crescem numa fúria de afirmação, a noite com os cambiantes da movida de uma qualquer outra grande capital mundial, o seu povo sem o uniforme cinzento das massas proletárias, os rapazes e raparigas que exibem retoques de moda pitorescos, a lembrar a nipónica geração flower, enquanto os papagaios de papel, ícone da cultura chinesa milenar, flutuam nos céus, ao sabor da brisa quente, e a miséria mais abjecta espreita dos hutongs, ali mesmo, no coração de Pequim.
Iva Carla Vieira
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