UM PAÍS DE DOUTORES




Perdeu-se, em Portugal (há muito tempo!) a noção do valor do Trabalho.

Perdeu-se a consciência do quanto vale, para uma sociedade, o saber fazer bem, o ser-se bom numa arte ou num ofício.


A reboque da necessária alfabetização de um povo que, há umas décadas, estava na cauda da Europa, acabámos no lado oposto, a ostentar títulos académicos como se fossem, apenas, a ultima ratio para se ser Alguém.

Depois vieram os fenómenos que todos conhecemos:
A proliferação das universidades e dos estabelecimentos de ensino superior, públicos e privados, em número muito superior ao que seria necessário para o nosso País e para o “mercado” dos potenciais candidatos a trabalhar;
A profusão (indecente) de cursos, com programas “feitos à medida” de quem promove a sua oferta (e não com as necessidades da nossa economia e dos potenciais empregadores), alguns deles com uma duvidosa qualidade científica, e que certificam “a torto e a direito” catadupas de diplomados, sem inquirir da sua empregabilidade ou possibilidade de vingarem no mundo do trabalho.


          Daí que nos lutemos, hoje, com este paradoxo: nunca tivemos tantos jovens tão academicamente preparados num Portugal que não pode absorver as suas capacidades, por não existirem PME, grandes empresas e organizações com uma capacidade económica e financeira para os recrutar.


            Também estas, as empresas, foram vítimas das más políticas e opções e acabaram desvitalizadas. Não temos, consequentemente, um tecido empresarial forte, competitivo e internacionalizado, porque, em décadas de governação – que segue, à letra, os ditames (ou directivas?) da União Europeia – desmantelámos os nossos parques industriais, pagámos a agricultores para não cultivarem a terra, deixámos as falências (e as insolvências) arrastarem-se nos Tribunais, sem uma alternativa para viabilizar as unidades produtivas, que se transformaram em autênticas sucatas ou cemitérios de equipamentos industriais obsoletos (…com administradores judiciais a auferir chorudos vencimentos para “administrarem” massas falidas).

            Tudo isto, lado a lado com a concorrência desleal dos países que produzem bens ao preço de “uma tigela de arroz” e onde a mão-de-obra assenta em modelos esclavagistas, com crianças a trabalhar, sem leis de protecção laboral, sem normas elementares de segurança e higiene no trabalho.
          Mas são outros contos… que não interessam mesmo nada a quem não tem escrúpulos e só quer o lucro fácil! Entregámos o ouro ao bandido, o que é dizer que transferimos os nossos segredos de fabrico, as técnicas (muitas delas artesanais), os modelos e os desenhos. Portanto, é tarde demais!!!


         Os jovens que, de facto, são competentes e perseveram na sua Ousadia, esses vão embora. Procuram melhor sorte e recusam-se a ficar num País que os preparou, mas nada mais tem para lhes dar (uma oportunidade, a dignidade no trabalho, um salário que lhes permita ser autónomos e viver longe das “asas” dos pais, criar família, ter filhos … ter sonhos!!!).

            Depois há aqueles que frequentaram os cursos para se alfabetizarem e serem certificados numa profissão, os que frequentaram a formação NOP (Novas Oportunidades) e que ainda não sabem escrever uma frase completa sem erros ortográficos.
           Ingressam, mal preparados, no ensino superior. O drama instala-se quando dão de caras com Professores competentes, que acumularam uma prática profissional e exigem o que, de facto, deve ser exigido: a Excelência, o Rigor, o Trabalho.


            E, para colocar a cereja no topo do bolo, somos confrontados com uma nova realidade de um descaramento inédito: os falsos doutores e engenheiros. Dizem-se titulares de licenciaturas (concluídas em universidades que nem sequer têm registo das suas inscrições ou frequência) ou terminadas em tempo recorde (com dezenas de disciplinas – agora denominadas unidades curriculares – às quais foi reconhecida equivalência e certificação, pelo experiência profissional do aluno!!!!).
           A nata destes licenciados tem acesso a um estatuto que desconheço. Sem serem atletas de alta competição ou portadores de deficiência, lá se justificam com as "cadeiras" que fizeram atabalhoadamente, com exame enviados aos alunos de forma personalizada (com cartão de visita a acompanhar), para serem realizados na paz das suas casas, no escuro dos seus gabinetes, sabe-se lá por quem... mas sem constrangimentos de nenhuma espécie.


            Para uma sociedade sem patologia, isto é batota, falta de ética, abuso de poder e infracção grave.

            Para uma sociedade apática – como a nossa – são faits divers, sujeitos à esgrima de argumentos de jornalistas que, por sua vez, saíram das respectivas escolas sem um pingo de formação e  consciência da Cidadania!  

            Andam (estes licenciados) nas bocas do mundo. Sabemos de quem se trata. Mas nada se faz! Assim, suavemente, encaramos, com a mais parva naturalidade, os falsos padres, os falsos advogados, os falsos médicos, os falsos juízes e sabe-se lá o quê mais!

            Numa sociedade de Direito Democrática, o simples facto de ser pública notícia dá o direito (e o dever) de se promover processo-crime por usurpação de funções… e de títulos.
           Mas quem se atreve, quando o autor destas façanhas é titular de cargos públicos, de gente que está na administração da res publica? Num desvario alorpalhado, há quem não saiba que estes "licenciados" não exercem os cargos por direito próprio ou divino, mas porque foram legitimados pelo voto dos seus administrados que, por não terem melhor opção, vão à urna e nela depositam, ainda que com reservas, a sua derradeira, mas sempre renovada Esperança.

            São brandos os nossos costumes e a nossa Lei com os poderosos!

            É forte a nossa Lei com os “pilha-galinhas” e com o tal jovem que fez um download de uma música qualquer…. E é fraca com a poderosa gente.

            Em Portugal ser doutor é essencial.

            Na vizinha Espanha (haja Deus!) todos se embaralham com o nosso mundo de doutores. Dizem eles (e bem) que nunca sabem se falam com o médico ou com o escriturário.

            Porque lá, e noutros belos países da nossa Europa civilizada, somos tratados pelo nosso nome civil, ou por tu, sem quebra de cortesia.


            Seria óptimo resgatar alguma seriedade e transparência neste “carreirismo” feito de doutores que nem se sentaram num banco de faculdade ou ouviram a lição de um mestre!

E seria, sim, fundamental para o progresso do País, dar o justo valor a quem sabe fazer o seu ofício e desenvolver a sua arte com mestria.  


            Não estava muito errada quando, em Setembro de 2004, escrevi e publiquei esta crónica que segue:




PARABENS SENHOR ENGENHEIRO!


Um dia destes, folheando a “Visão” acabadinha de comprar, saltou-me logo à vista uma pequena notícia, com o sugestivo título “O fim dos Doutores e Engenheiros…e o embaraço das secretárias”.

O artigo vinha primorosamente ilustrado com o retrato de Ludgero Castro, presidente da AEP - Associação Empresarial de Portugal, com o seu inconfundível ar pragmático e um chapéu de borla, usado pelos diplomados nos EUA.
 

De apelativo que era, li-o num trago.

E aqui confesso a minha absoluta e incondicional concordância com a matéria de fundo, que relata, embora com uma pequena infidelidade, o teor do ofício-circular enviado por Ludgero Marques a todas as empresas e entidades parceiras da AEP, nacionais e estrangeiras.

Tanto foi o meu interesse, que me fizeram chegar cópia desta mesma comunicação, que li atentamente. Ao contrário do que foi noticiado pela Visão, ele não aboliu os títulos académicos no tratamento quotidiano institucional.

Fez muito mais!

Depois de algumas considerações preambulares, cheias de cabimento, recomendou e propôs,isso sim, o “abandono do uso de títulos académicos, deixando a cada pessoa a escolha de tratamento pessoal que exprima, de forma mais próxima, a relação de trabalho e o respeito mútuo.”


A argumentação de cabeçalho e roda-pé (do dito ofício) é simplesmente sublime e de uma modernidade incontestável. Reza, de entre muitas razões, a que passo a citar: “Contrariamente ao que acontece na maioria dos países nossos parceiros, a cultura dominante em Portugal dá menos importância às competências, conhecimentos e capacidades das pessoas do que aos títulos académicos.”.   

Há muito mais nesta circular, mas fico por aqui.

Todos sabemos que Portugal, de há umas décadas a esta parte, se transformou numa floresta intrincada de “doutores” que fazem questão de serem assim tratados, até pelo merceeiro que avia a sua lista de comestíveis ou pela empregada doméstica que lhes lava a roupa interior.

A proliferação de cursos e saídas profissionais que brindam os seus candidatos com o almejado canudo pode explicar, um pouco, esta apetência dos portugueses. Para esta realidade absurda muito contribui o paternalista anseio de progenitores que projectam nos filhos os seus sonhos adiados, e para quem o valor intrínseco dos que “sabem fazer bem” o que quer que seja depende exclusivamente do estatuto social que decorre da titularidade uma licenciatura qualquer.

Na cultura portuguesa, as relações hierárquicas de uma estrutura empresarial rígida e autoritária foram transpostas para a vida social, e tornou-se prática corrente o tratamento de “Sr. Dr.” a torto e a direito.

A tanto se chegou, que há quem tenha o gosto mais do que duvidoso de se nos dirigir a palavra com o cuidado prévio de se anunciar pela forma que segue:

Daqui fala o Dr. Pimenta”…

Ou quem faça galardão de ser tratado por Sr. Presidente, ainda que seja o presidente da mesa de assembleia geral da Associação Criadora de Minhocas Para Pesca À Cana.

Com a rede intrincada de títulos, genuínos e usurpados, “ad hoc” e falsificados, chego a ter receio de causar algum melindre quando, por hipótese, no outro lado da linha, está alguém que, sendo secretário ou recepcionista de um “Sr. Dr.” ou “Sr. Presidente” qualquer, ou ainda um titular de órgão social, acontece ser também um “Sr. Dr.”, que preza igual tratamento.


Difícil é explicar aos nossos vizinhos espanhóis, franceses e por essa Europa fora a razão pela qual Portugal é um país tão douto, onde tudo o que mexe invoca título, certificado ou diploma.

Nestas terras, onde o tratamento informal é muito valorizado e onde para cada arte e ofício existe tratamento adequado, este problema tornou-se um verdadeiro quebra-cabeças.   

Como gosto de remoer ideias e porque me entretenho a tirar exemplos das muitas vidas que por mim se cruzam, lembro-me de expressões lapidares como esta: “cada um é mestre na sua profissão”, se a exerce com mestria.

Penso que todos contribuímos para esta situação crítica, uns por acção e outros por omissão. Pessoalmente, e porque tenho apego à terra, a modos que “uma costela de lavradeira”, como costumo dizer, fui educada a valorizar o saber e a experiência de um bom artífice ou artesão, seja ele sapateiro, médico, canalizador ou advogado.

Quem exerce o seu mester com brio profissional e sentido de responsabilidade é útil e acrescenta mais-valia ao seu trabalho e à sociedade. E qualquer um, independentemente do seu perfil profissional, pode ser pessoa culta e cultivada, daí que um dos mitos a desfazer é o de equiparar título académico a literacia e a educação cívica.

Digo mais: há “doutores” que não passam de uns perfeitos alarves, por grossos e rudes, e outros que mal conseguem redigir, sem erros ou com inteligibilidade, uma comunicação, um despacho ou uma ordem de serviço. 


Está pois de parabéns Ludgero Marques que, corajosa e pioneiramente lançou esta proposta. É ele mesmo quem diz, na tal circular, que, com este repto, poderá reforçar-se “uma cultura de modernidade” e que, por esta via, podemos ser os “agentes da mudança de mentalidades, da alteração cultural e do desenvolvimento do País”.

Pessoalmente, acho do mais piroso que há subscrever um documento com o tal “Dr.”, que nada acrescenta à eficácia da comunicação.

Além do mais, convenhamos: quem é capaz de construir um projecto de vida e um trajecto profissional baseados num referencial de conhecimentos e competências, conquista um direito especial: o de ser conhecido e tratado pelo seu nome.

Já agora, e se me ler, perdoe-me (Ludgero Marques) tê-lo tratado por Sr. Engenheiro. Foi apenas o melhor expediente para prender o leitor a esta prosa.

Iva Carla Vieira



 Ludgero Marques - AEP (2007)











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