INVENTAR O VERÃO



 
Agosto de 2012 - ZESTOA
Vista de um quarto de hotel.
O verde profundo dos troncos de árvores centenárias.
As copas de um verde mais suave, a reflectir o sol tímido da manhã.
Fundado em finais do século XIX, por este hotel balneário passaram gerações que procuravam a paz imutável que dimana de um equilíbrio manso entre o Homem e a Natureza. 
 


Do mesmo quarto de hotel, o olhar alcança a linha dorsal da montanha.



 
 
E, bem mais perto, lá em baixo, os caminhos bem tratados onde passeamos sem pressa, escutando os rumores da água que corre no rio e a nossa respiração.
 



 
Curiosidades de um tempo áureo que passou.
Os cadeirões em verga, com alçado, para evitar os rigores do sol, numa época em que não era prioridade exibir troféus de praia.
Na secção museológica do hotel.

 
 
 
 
A grande cobertura em vitral, num dos salões de lazer.
Uma obra belíssima, ainda que a necessitar restauro, mas que patenteia o esplendor dos hotéis de charme de finais do século XIX, frequentados por uma aristocracia que buscava descanso nos tratamentos termais.
 
 



Na galeria, que une hotel e balneário, fotografias de épocas que o tempo sepultou.
Em todas, descobri um deleite similar ao que sentia ali, e a mesma beleza dos rostos que são nossos e que reconhecemos todos os dias.
 
Houve uma fotografia em particular que me fascinou: a de um grupo de jovens trajados a rigor para um jogo de ténis.
Dei comigo a sondar o que diriam os seus olhares, quais os sonhos que albergavam, que vidas viveram. Todos nascidos há mais de um século.

 
 
Zumaia, a pouquíssimos quilómetros do hotel balneário.
Uma vila com praias tranquilas, em que a beleza nos espreita de qualquer lado.
 

 
 
Panorâmica das docas e do estaleiro naval.
Aqui se construiu um navio para uma plataforma petrolífera.
Levado por arrastões, foi mar adentro em finais de Agosto.
 

 
 
Um detalhe que me agradou.
 

 
 
 
Sempre a presença da água que entra no canal, ao ritmo das marés.
 
 

 
 
 
 E a costa rendilhada que se avista de um dos miradouros de Deba.
 
 
 
 
 
As fragas, que se assemelham a solo estratificado por muitos Tempos.
Talvez seja uma das razões que levam os Bascos a afirmar que o seu país é o mais antigo da Europa.

 
 
 
A generosidade dos areais e das ondas doces.

 
 
 
O hotel visto de uma montanha circundante.
De resto, são os conjuntos montanhosos que lhe dão a moldura da serenidade, e nos garantem o isolamento de tudo o que seja ruído e que está a mais!
 

 
 
E os ecossistemas que nos parecem, a nós citadinos, uma realidade nunca perturbada pela mão do homem. 
 

 
É possível, de facto, inventar o Verão.
Em qualquer circunstância.
Em qualquer lugar. 
 
 
 
Crónica publicada em jornal a 2 de agosto de 2002, que republico, volvidos 10 anos.
 
 
INVENTAR O VERÃO
 
António Vivaldi encheu a sala onde escrevo, com as Quatro Estações. Neste momento, o inconfundível Allegro da sua Primavera evoca o murmúrio das fontes, o sopro suave das brisas e o sussurro das folhas. Tudo é tranquilidade.
 
Il Cimento dell’ Armonia e dell’ Inventione” é uma imitação tão feliz da Natureza que até parece pecado que haja um mortal que fique quedo, perante a invasão destes sons mágicos.
As Estações, imortalizadas na música do “Padre Ruivo” - como ficou conhecido este Veneziano genial, por conta da cor dos seus cabelos - não são já o que eram. Subverteram-se, pela mão da Humanidade. Sinto-me, assim, com alguma legitimidade para recriar as minhas Estações.
 
E apesar do Verão, que corre lá fora no seu apogeu, na minha sala ainda é Primavera. Escuto o prelúdio do Estio, a danza pastorale que tem a virtualidade de me recordar, antecipadamente, outros Verões cheios de piqueniques na areia, longos passeios à beira-mar, com o sol do entardecer e um arrepio na pele, depois dos mergulhos na água fria, com a “língua da sogra”, o carrinho dos gelados e a vendedora ambulante de pastéis.
 
Entrelaçada na onomatopeia musical de Vivaldi, consigo lembrar-me dos jogos estivais e do bom que é nadar crawlentre duas ondas não muito revoltas, ou quebrá-las em cheio com a barriga, e revivo a alegria de colher, dos despojos da maré-baixa, conchas e “beijinhos” com que fabriquei muitos colares de Verão.
 
Agora, entra o Allegro non molto do Concerto de Verão, simultaneamente ardente e compassado, que me leva em rodopio.
Oiço com nitidez o cuco, o pintassilgo e a rola, que disputam entre si um canto exímio, mas a verdade é que me sinto arrastada pelo turbilhão da melancolia. Cá dentro, tenho a certeza de que não há mais Verões como antigamente.
 
Com o tempo, descobri que pagamos um preço elevado pelo crescimento industrial sem regras e que o lucro desenfreado não se importa, rigorosamente nada, com a preservação das espécies e da nossa orla marinha. Polui-se, indiscriminadamente, ao lançar todo o tipo de efluentes não tratados nos nossos rios e mares.
 
Com os anos, é maior o receio da exposição aos raios do Sol, cada vez mais impiedosos nos dias escaldantes, porque se rarefaz gradualmente a camada protectora do ozono. As campanhas sanitárias insistem na educação preventiva mas há sempre a publicidade que rema contra a maré da prudência e enfatiza o “culto do bronze”.
Falta-me o odor genuíno da maresia, em noites de Verão, porque, um pouco por toda a costa, deparo com resíduos de muitas espécies e uma miscelânea de cheiros duvidosos.
Neste Allegro non molto, as violas e os violoncelos, em desafio com o violino agudo, imitam o zumbido dos insectos e o canto das aves; porém, a Natureza está revolta com incêndios devastadores a queimar, a devorar florestas inteiras, e as mãos criminosas que os ateiam afastam as mãos enconchadas, dos viajantes que bem poderiam beber a água das fontes.
Subitamente vem o Adágio-Presto, sincopado e grave, numa fúria descontrolada, para não me esquecer que este Verão ainda não pode ser Verão em muitas praias, como as do Mar Morto, porque há gente a morrer no fogo cruzado das armas, e por cá não nos atrevemos a caminhar nos areais desconhecidos, com receio de uma seringa perdida.
 
Mas soa já o Presto, com a tempestade furiosa e os rasgos de uma chuva estival que me acalma e mata a sede. Tenho a sensação de que só assim posso escapar à temperatura dilacerante de um Verão tórrido.
 
Nesta sala onde escrevo, faço o meu próprio Verão.
Posso mesmo alongá-lo ou torná-lo breve.
Basta ouvir o Concerto in Fa Maggiore, que vibra agora, e muito em breve o ciclo das minhas Estações estará encerrado. Resta-me escutar, serenamente, os quarenta e cinco compassos do Adágio que se estende piano, mui piano, pianíssimo ... como a sesta que se dorme quando o sol está no zénite.
 
Lá fora, o poente avança.
Por detrás da vidraça, é mais do que certo que o calor se mantém.
Cá dentro, especialmente na minha alma, só há sonoridades Barrocas desta obra sem tempo.
E por favor, não me digam que há um modo melhor para se inventar o Verão! 
 
Iva Carla Vieira
 
 
 
 


Comentários

Mensagens populares deste blogue

A MATRIOSKA VISTA POR GALYNA STARCHUK